domingo, 3 de maio de 2009

Insónia.

Três pecados e duas virtudes? Mas que raio! E a coruja era-me vagamente familiar... mas de onde!?

...
Depois do incidente com o Urso a minha cabeça assentou. Sim, eu voltaria para a Clareira. Nunca devia ter de lá saído. Ou talvez tivesse sido esse o propósito do Destino quando me fez partir: perceber onde é o meu lugar.
Caminhei durante dias. Estava bem mais embrenhado na Floresta do que julgava, mas admiravelmente sabia bem o caminho de volta. Atravessei sítios que julgava já ter esquecido, outros onde jurara nunca voltar. Atravessei chão e memorias, da frente para trás, lentamente. Até que cheguei. A escassas centenas de metros da Clareira comecei a ouvir as vozes. Risos de crias jovens e conversas de machos adultos. As palavras eram indistintas, e também não era do meu interesse escutá-las dali. Não tardaria a estar com eles. De onde nunca devia ter saído. Avancei. À minha esquerda estava um par de olhos negros. Sentinelas. Sabia-lhe o nome, mas não o cumprimentei. Ao contrário dos guardas, as sentinelas devem ser ignoradas em sinal de respeito, já que não é suposto sabermos que ali estão, mesmo quando se mostram.
Já devia estar na zona controlada da Clareira; a sentinela seguia-me, e julgo ter-me percebido de mais duas. Devem estar ansiosos por me poder falar; sabia que ali, não podiam. Da penumbra em que me encontrava, começava já a reconhecer algumas caras. Alguns conhecidos, velhos amigos. Alguém mais que amigo. Corri. Dois guardas surgiram à minha frente, rosnando fortemente, e o silencio abateu-se naquele instante.

Toda a Alcateia tinha os olhos postos em mim. Expressões de horror, de medo. Olhei para o outro lado, esperando encontrar uma expressão diferente, talvez na cara de alguém conhecido. Velhos amigos que viravam a cara. Alguém mais do que amigo que não me reconhecia.
As sentinelas atrás de mim avançavam lentamente, de cabeça baixa e membros flectidos.

Não se lembram de mim?! Sou eu! – gritei. Alguns deram um passo atrás.

O que fazes aqui? – perguntou uma voz que não conhecia. Tinha na cauda um anel dourado, na orelha esquerda um ornamento em madeira. Era o ancião mais graduado. E eu não o conhecia. Devia ter passado mais tempo do que julgava.

Wolve é o meu nome, para os que ainda se lembrarem. – disse com desdém. Já não acreditava que me conhecessem.

Não te perguntei como te chamas. Perguntei o que fazes aqui. – Aquele lobo era o único que não mostrava medo. Talvez não o sentisse, de facto. Alias, era o que estava mais perto.

Eu perten... pertenci aqui, em tempos.

Continuas a não responder à pergunta.

Reflecti um pouco antes de voltar a tentar. Olhando o lobo nos olhos, percebi que a pergunta que me fazia não pretendia satisfazer uma dúvida. Era óbvio que ele já sabia a resposta. Eu é que não.

Não sei. Voltei porque sinto que pertenci aqui, às pessoas que já não me conhecem. – olhei à minha volta com repugnância – Que talvez nunca tenham conhecido.

O lobo sorriu e agitou a cauda, o anel brilhando com os movimentos. – A pergunta renova-se, mas no entanto mantém-se. O que fazes aqui, então? – disse, marcando cada palavra da pergunta.

A raiva preencheu-me por completo. Tinha endurecido muito nas minhas viagens, tinha enfrentado muito, mas nada do que tinha apanhado pela frente me preparara ou ensinara como enfrentar a sabedoria. Reconheci nela a maior força que um lobo pode ter. O ancião ainda me olhava, sempre nos olhos, sem medo, sem troça, sem um único sentimento. Era uma voz inerte, apenas, que proferia as palavras que eu devia ouvir, fazia maquinalmente as perguntas que devia ter feito a mim próprio. De tal modo que raiva que sentia não podia tê-lo sequer como alvo. Ninguém sente raiva de um gravador, pois não? Mas ele ainda esperava a resposta. “O que fazes aqui, então?”

Nada.

Não nos tenhas raiva, ó ser que nos transcende. Compreende por favor, nós não somos mais que lobos. Não temos lugar para um lobo demónio entre nós.

A calma com que dissera aquelas palavras chocou-me. Demónio? Eu? Eu sou só o Wolve. As forças que tenho encontrei-as dentro de mim, nada mais. Mas eles rejeitam-me.

Perdoa-me, ancião. – ele não se mostrou afectado por não o tratar com cerimónia – Não te percebo. Não vos percebo. Mas não me sinto na obrigação disso. Vocês já não são o meu povo. Partirei.

Ele meneou, levemente, ainda com a sua expressão branca, sem qualquer traço de sentimento. Nada tinha ficado por dizer, e o seu focinho denotava isso mesmo. O vazio. Tudo estava dito. O fim.
Dei meia volta e as sentinelas abriram alas. Passei em direcção à linha de árvores que marcava o fim da clareira. Escoltaram até ao fim dos terrenos da tribo, e ficaram a observar até eu desaparecer da vista. Então parei, perdido nos meus pensamentos.

Não sabia realmente o que tinha ido ali fazer. Antes parecia tão clara, a felicidade que advinha só da ideia de os rever a todos, e agora não fazia sentido nenhum...

Eu não tinha mudado. Continuava a ser o Wolve. Eles é que tinham mudado. Eles é que me rejeitaram, eles é que mudaram! Não suportam a possibilidade de alguém ter mais força que eles, a força de partir e voltar maior! Idiotas! FROUXOS!!!
Suspirei profundamente. Tinha que me acalmar. Talvez andar ajudasse. Ao primeiro passo, a minha mão chapinhou na agua. Tinha uma poça mesmo debaixo da mão direita. Uma poça que alastrava. Então reparei no meu pelo, vermelho como o por do sol. Todo o meu corpo resfolegava um escarlate vivo, o pelo estava maior e hirsuto. E a neve derretia à minha volta.
Antes que pudesse entrar em pânico, uma voz falou-me vinda de cima.

Boa noite, Demónio. – era um coruja branca como um floco de neve, pendurada numa arvore.

Rosnei. Porque raio toda a gente me chamava agora demónio? – Que queres?

Ajudar-te. – respondeu com serenidade.

Ajudar-me? – baixei a guarda, ainda desconfiado – Ora ai está uma que ainda não tinha ouvido. E por que carga de agua?

Porque já passei por isso. – Apanhou-me de surpresa. – Julgavas que os demónios aparecem como o chocapic? “Puf” e já está?

Estás a dizer que és um demónio?

E tu também. – Depenicava numa asa enquanto falava, como se nada fosse.

Não acredito em ti.

É a parte de eu ser um demónio que te incomoda? Ou de tu seres um também? – agora dava atenção a uma das garras na sua pata esquerda. – Bem, já que a minha palavra nada vale, demonstremos a veracidade de tais afirmações!!! – A árvore onde estava colapsou, envolta em chamas, enquanto o gigantesco pássaro de fogo voou contra mim a direito, colossal. Esquivei-me a tempo, mas ele deu uma volta no ar, e antes que pudesse recompor-me, investia novamente. Tinha que me defender, e sem tempo para pensar em algo melhor, usei das presas, mas ele estacou a meros milímetros dos meus dentes. Não era mais que uma coruja branca no chão da floresta, outra vez.

Olha para ti, lobo. Olha à tua volta.

A primeira sensação que tive é que algum animal de grande porte estaria ao meu lado, porque o chão vibrava compassadamente. Demorei a aperceber-me da ausência de neve, e do toque áspero da terra. Olhei para baixo, e vi nas minhas mãos garras que não me pertenciam. E o meu pelo estava rubro como nunca antes o vira.

Agora, vê se acalmas esse teu coraçãozinho barulhento. – e levantou para uma arvore próxima.

“Só me faltava esta, agora.”

2 comentários:

Medusa disse...

"Puf" e fez-se o chocapic xd as corujas não sabem isso! xd

Wolve versão Sam? xd

Wolve disse...

seria tão pouco original... não achas?