Vem. Quero mostrar-te uma coisa.
Ela seguiu-me silenciosamente, sempre com algum distancia. Não a censurava. Eu era um lobo, ela um felino, era mais normal que nos matássemos logo ali. Mas ela não. Era como se fossemos herbívoros, ou de uma cadeia alimentar diferente, tal como entre um de nós e um pássaro. Como se não houvesse ligação possível.
Mas havia ligação... Não havia, no entanto, razão que eu conhecesse que pudesse justificar sentir-me assim, mas era de tal modo forte que as razões se tornavam desnecessárias. Não sabia porque, nem se havia algum porque à altura daquilo, mas eu sentia-me bem, mesmo assim.
Só por isso eu a quis levar ali. Ao meu sitio. O topo do abismo.
A noite era clara como o dia. A lua enorme iluminava as terras altas, solitária no céu sem nuvens. Assim que a linha de árvores escasseou, avistou-se o recorte do fim do chão, irregular e afiado, metros adiante. Olhei para trás, perscrutando a expressão da minha seguidora, temendo que houvesse medo no seu rosto, nos seus olhos extasiantes. “Nunca quero ver medo naqueles olhos...”. Mas ela parecia serena. Avancei.
Tens medo de alturas?
Não. – respondeu, baixinho.
Então vem. Olha que é muito alto. – Mas ela avançou na mesma.
A luz da lua marcava uma linha clara, o fim da floresta, e quando ela avançou para lá da sombra, eu perdi o meu coração algures entre a ponta da cauda e o pescoço. O seu corpo era a coisa mis linda que a natureza me dera alguma vez a conhecer. Não pelo corpo em si, mas pelo porte. Cada pata era cuidadosamente pousada no chão, no entanto a passada era firme, a pressão contra a neve, precisa. E o ondular dos ombros era elegante e desportivo, sem ser insinuado; muito pelo contrario, ela não provocava nada daquilo, era a sua maneira natural de ser, percebia-se. E quando olhava para alguma coisa, os olhos não se viravam somente na direcção míope do alvo, mas sim percorriam toda a distancia com a intensidade do voo de um falcão, perfuravam a paisagem... ou quando olhava para mim, os meus olhos.
Realmente, ela não tinha medo nenhum. Aproximou-se da escarpa, bem até à berma, e quando o vento ascendente lhe fustigou os bigodes, esticou-se bem para a frente, o mais que os braços lhe permitiam, de olhos fechados, saboreando os redemoinhos que o ar lhe provocava no pelo negro. Eu só a conseguia observar, petrificado, uma espécie de fascínio liquido a correr nas minhas veias, o coração descontrolado contra a garganta que não sabia de todo o que dizer.
Vais empurrar-me agora? – perguntou ela, com a sua voz suave como uma harpa.
Algo caiu dentro de mim e acertou-me mesmo no estômago, seguido de um arrepio logo a seguir que me deixou o pelo numa lástima. – Porque haveria eu de o fazer? – a minha voz tremia como varas verdes.
Tens estado a olhar para mim tão fixamente que sinto os teus olhos na minha nuca.
Suspirei. – Se alguém tentasse empurrar-te, acho que me punha à frente. E nem o teu nome sei. Nem tão pouco sei porque raio sinto isto, ou tenho coragem para to dizer. – Ela olhou-me muito séria.
Morgan. – disse.
Wolve.
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