terça-feira, 19 de maio de 2009

Abraços

Eu devia estar morto, sabes? – ela olhou-me com os seus grandes olhos dourados.

Porque dizes isso?

Enveredei por caminhos que não devia, que não eram eu. Vivi a vida de outro lobo, em vez da minha. E...

E?

Fui julgado, por isso. Dentro de mim mesmo... e a sentença foi a morte. – Tinha a perfeita noção que não estava a fazer sentido nenhum. – Caí, estatelei-me no chão. E no entanto, estou aqui. E tu como dádiva, em frente aos meus olhos... – ela olhava-me calmamente, enquanto mergulhava os meus olhos nos dela. Era tanta a paz quando ela me olhava assim...

Esperei que se levantasse, que se fosse embora, que me chamasse louco, que explodisse de riso a qualquer momento, que perguntasse se estava a brincar... qualquer coisa!
Ela olhava-me apenas.

Porque me contas tu tudo isso? – perguntou serenamente.

Não sei. – Era sempre tão fácil responder-lhe, não importava qual fosse a resposta – É como se existisses dentro de mim; não vale a pena não te contar, se cada vez que olho para ti é como se já soubesses. Sinto por ti o que nunca senti pela alcateia.

E o que é isso?

Pertenço aqui. A onde tu estiveres. A ti. – Ela olhou-me bem no fundo dos olhos, como se me conseguisse ver o crânio por dentro, de tal maneira que me encolhi. Se ela soubesse como eu adorava aqueles olhos...

E onde vais tu arranjar coragem para tudo isso? Tu és um cão, e eu uma onça. Nem devíamos estar tão perto.

Já te disse. Cada vez que me olhas assim não há segredo que te esconda. És diferente. – os olhos dela ainda não desaparafusaram dos meus, e eu flutuava no olhar dela. – Se me matasses aqui, eu não ía nem lutar. Não contra ti. – “um arranhão em ti valia a minha vida inteira e todos os míseros gestos que alguma vez fiz...” pensei. Ela libertou-me dos seus olhos e varreu desinteressadamente o muro de troncos à nossa frente. Suspirou.

Estávamos ali há horas. Desde que estivéramos no penhasco que não nos separáramos, e tínhamos andado lentamente, conversando, através da floresta. Tínhamos chegado à beira daquele rochedo, e ali ficámos encostados, agora em silêncio, contemplando como a um deus os flocos que caiam em paz. E o silencio era de ouro, a simples presença dela emanava contra o meu corpo. A necessidade de comunicação era suprida por aquela sensação, e o facto de haver palavras no ar ou não era uma banalidade.

Porque não me abandonaste no chão, no outro dia?

Silencio.

Porque não consegui. – pausa. Ela olhava a lua, quase por cima das nossas cabeças, ao mesmo tempo que sentia os flocos cair no rosto. – Não consegui não voltar para perto de ti, de cada vez que tentei ir-me embora.

Mentiste-me.

Sim. Não saí de perto de ti momento algum. Passei os quatro dias à espera que acordasses, tentando sobreviver entre o lado que me dizia para ir e o que me pedia para me deitar ao teu lado.

E agora? Que vais fazer?

A luta ainda não acabou, dentro de mim. – e olhou-me, completamente desarmada. Foi o olhar mais sincero que lhe vira.

Ela estava apenas a alguns centímetros de mim, de tal modo que, momentos antes, ao virar-me para coçar o flanco com os dentes tive que me afastar para não lhe tocar. Não pude resistir. Ela baixara completamente a guarda; eu há muito que perdera a minha.
Estiquei-me e abracei-a, o meu pescoço enrolado no dela.
Se ela desejasse matar-me, não teria problema. Um lobo não tem mais que os dentes, para se defender, e esses estavam atrás das suas costas. Bastava-lhe morder-me o pescoço e eu iria para onde devia estar, segundo o Urso e a Coruja.
Em vez disso, ela nem se mexeu, deixou o meu pescoço ajustar-se ao dela, o meu peito a roçar-lhe o ombro. Depois apertou-se contra mim, e os breves instantes que assim estivemos nunca poderiam ter sido longos demais. Ah, e o aroma do seu pelo... Mas os instantes terminaram, ela afastou-se lentamente de mim, roçou a bochecha no meu queixo, e repentinamente virou. No momento seguinte tinha o nariz colado à minha clavícula.

Podia matar-te agora. – disse, o seu hálito contra o meu pelo, entrecortado pelas consoantes. No fundo eu sabia que ela se tinha lembrado da possibilidade, quanto mais não fosse por tê-la lido no fundo de mim.

Traíra a minha confiança. Talvez eu devesse mesmo morrer, e ela fosse apenas o mensageiro. Talvez aqueles maravilhosos momentos fossem apenas o executar da sentença; e se era, estava eternamente grato pela morte que me reservaram.
Os seus dentes eram muito esguios, pareciam de uma cobra, não de um gato. O golpe seria rápido. Cerrei os olhos com força e esperei. No silencio da noite conseguia ouvir a respiração regular dela, logo abaixo da minha orelha esquerda. Quando ela abrisse a boca, eu ouviria também. Continuei à escuta.
O beijo que me deu, logo ao lado da traqueia, foi doce e intenso. Era uma beijo de vida, de morte, de entrega. Abri os olhos devagar, sem acreditar que me era concedida a dádiva da vida uma vez mais, para contemplar aquele ser maravilhoso.
E o ser maravilhoso continuou o gesto, desceu mais um pouco e aninhou-se aos meus pés, de olhos bem fechados. Onde estava foi onde me deitei, enroscado meio em mim, meio no corpo dela.

Nunca lhe esquecerei o aroma. Nem a noite em que o conheci.

1 comentário:

Medusa disse...

oh wolfie... escreves estes textos bonitos e tal e que nem me soam nada familiares... xd e não dá... até dói abrir o blog e dar de caras com aquela foto, sério. não condiz uma coisa com a outra... podias muito bem deixar as pessoas a pensar que só gostas de escrita e música...sério... xd
beijinho*