sábado, 18 de abril de 2009

Vida ou morte.

Não voltei a tentar descolar as patas da neve empedernida. Sabia que aquela água não diluiria nunca. Nem lavaria os podres em mim; estava ali aliás, precisamente para os trazer ao de cima. Para alem disso, sabia bem como são estes demónios, e conhecia na pele a força férrea que os impelia, forjada no prazer que sentiam ao devorar os espíritos perturbados, sabia como os seus âmagos ansiavam ardentemente por se alimentar e o quanto o fedor ao longe lhes crispava a sede. E se alguém fedia, era eu. Parecia uma raposa imunda.
O corpo é frágil, não valia a pena lutar com os ossos, arriscava-me a ficar sem eles. No entanto sabia o que fazer. Fechei os olhos e o combate começou e imediato.

Estava pendurado de cabeça para baixo, as quatro patas afundando-se na rocha firme do penhasco, mesmo á minha frente o precipício que seria o meu fim, se a rocha me largasse. O silencio era absoluto, ao ponto de criar pressão nos meus tímpanos.

Ahem.

Olhei para o lado. Ali estava o Urso. Lembrava-me bem dele, fora uma batalha feroz...

...
Então e agora?
Agora? -- apoio-me numa perna e encosto-me ao enfezado pinheiro, descontraído. Não vale a pena ter medo, nem pensar muito. A vida às vezes tem estas tramas e depois de dado o nó só a tesourada. -- Eu adoraria sentar-me ai, e partilhar contigo um cigarro e uma cabeça de coelho, mas lobos e ursos não costumam dar-se assim tão bem.

Eu também não estou com vontade de te deixar ir embora assim... -- franze o sobrolho com ar paternal. Encolho os ombros.

O Urso levantou-se do tronco onde estava sentado, e mal se afastou reparei que o deixara rachado no sitio onde o seu peso assentara. Devia ter a força de um rio inteiro. Avançou para mim lentamente, contraindo as patas, concentrando-se no golpe em que incutiria toda a força do seu corpo. O golpe que não podia deixar que me acertasse, ou me abriria ao meio à primeira. Acabava de mastigar os restos do coelho com que se entretinha antes de eu chegar. Conseguia ouvir os ossos a estalar nos seus maxilares mesmo a dez passos de distância. Curiosamente o medo que esperava que me trespassasse tardava em chegar. Num relance vislumbrei o que poderia ser a minha salvação. Tinha um plano.
O Urso investiu mais agilmente do que julgava ser possível a um ser daquelas proporções. Em duas largas passadas acercou-se de mim, e tive tempo de me jogar para o lado de escantilhão, a salvo daquelas adagas por milímetros. As patas do urso atingiram o chão vazio com tal violência que a neve desapareceu, expelida em todas as direcções, a terra da floresta a descoberto pela primeira vez em meses. Enraivecido com o seu próprio fracasso, lançou-se sobre mim novamente, mas desta vez investi. Ele pareceu surpreendido com a minha coragem e tirei disso partido. Saltei sobre ele, e ele reagiu em milésimos de segundo, rugindo enquanto me açoitava com o braço direito, e eu voei largos metros até que uma árvore encontrou as minhas costas e caí dolorosamente na neve gelada, arqueando de dor. "Devo ter partido alguma costela", pensei. "Estou acabado." O Urso riu.

Os heróis servem-se mortos. Porque não fugiste?

Foi exactamente o que me trouxe ate ti -- respondi, enquanto arfava, enrolado sobre o meu ferimento. -- fugia... -- "de mim próprio", pensei.

És igual aos outros todos. -- não sei o que era mais nojento, se o seu esgar, se o tom de voz. -- A coelha fez o mesmo. Arremessou-se contra mim, na esperança que o seu sacrifício heróico lhe poupasse os filhos. Que eram de resto mais saborosos. O seu "esposo" -- e o tom aplicado à palavra foi ainda mais revoltante -- fugiu mal me sentiu o cheiro, deixou-os para trás.
Eu sabia que as crias não conseguem correr no inverno. Afundam-se na neve. Têm que aprender a correr antes que os predadores acordem na Primavera. Subitamente fui preenchido de todos os sentimentos que me tinham faltado até ali: medo, adrenalina... mas também raiva. Que raio de Urso era aquele que não dormia, que esperava as crias durante o Inverno, quando devia esconder-se numa toca? Que afronta à leis da Natureza! Quem lhe permitia que manchasse de sangue a neve branca?! E porque não viera nenhum demónio ainda, e levara aquela criatura do mal!?
De repente tudo fez sentido. A razão de estar ali...

O demónio era eu.

Levantei-me com novo ânimo. A dor lacerava-me as entranhas, e o sangue escorria pelo pelo num fio contínuo. A minha existência chegava ao fim e a urgia a necessidade de lhe dar um significado antes que esta cessasse. Caminhei contra o Urso que se virou contra mim, rugiu mostrando as presas gigantescas e investiu. Corri tanto quanto conseguia, precisava humilhá-lo primeiro. No preciso instante antes de colidirmos, ele ergueu-se nas patas de trás, pronto a rasgar-me num só gesto. "Agora!" e agachei-me como se fosse uma rocha, uma bola de pelo à velocidade a que cai a agua na cascata. Passei-lhe por baixo, e antes que percebesse, ceifei-lhe o apoio das patas anteriores. O estrondo da sua queda foi ensurdecedor. Levantei-me, atordoado. As pernas dele pareciam dois carvalhos, e o embate fora deveras doloroso. Devia ter piorado a ferida no meu flanco. Ainda assim não podia parar agora: faltava a ultima parte. Corri na direcção oposta enquanto ele se erguia, rubro de raiva.

Foges, agora!? COBARDE!!! -- vociferou, e a neve nas copas das árvores caia sobre mim com o ressoar das folhas que estremeceram.
Perseguia-me com o dobro da velocidade que lhe tinha visto antes. Rasgava o chão com as garras, arrancando algumas raízes, à medida que se impelia para a frente. Quase me alcançou, quando cheguei onde precisava: atirei o corpo de costas contra um abeto jovem. Este vergou à minha passagem e arranhou-me as costas, mas logo voltou ao sitio, fruto da elasticidade da juventude. Com uma violentíssima chicotada, acertou em cheio nos olhos do Urso que vinha escassos decímetros atrás de mim, com um som semelhante ao lascar da madeira de uma árvore centenária que desaba morta no chão. A besta gigante estacou ali mesmo, uivando de dor enquanto o sangue lhe brotava da face. Não tinha tempo a perder: juntei todas a minhas forças e retesei todos os músculos, especialmente os que me comandavam as mandíbulas. teria esta oportunidade, era pouco provável que tivesse cegado ambos os olhos àquele demónio, e pouco faltaria para que a ira se sobrepusesse à dor. Arranquei. Cravava ferozmente as patas na neve, e o impulso que me impelia para a frente deixava grandes buracos no impassível manto silencioso. A figura castanha e ruidosa crescia à minha frente, à medida que me aproximava, e no ultimo momento, quando abri as presas, rugi mesmo sem o pretender. A raiva tomava o meu lugar e fazia por mim o que tinha que ser feito. Emprestava-lhe o corpo, e ela libertava-me do fardo de matar. Em pleno voo direito ao pescoço do Urso, creio que o perdoei, e fechei os olhos pedindo me perdoasse a mim.

Se havia algo forte em mim eram os meus caninos. Assim que abocanhei aquele enorme pescoço, sob esquina do maxilar, a batalha estava terminada, não poderia haver mais trunfos na manga. Lançara-me por cima dele, e a velocidade a que o meu corpo ia vez-me rodopiar sobre o urso, firmemente ancorado à sua garganta. O seu pescoço quebrou num único estalido, seco e grave, como um enorme rochedo que se abre em dois ao cair da montanha. Aterrei violentamente do outro lado da besta, morta mas ainda de pé, com o queixo estranhamente virado para o céu. Embatera no chão com a mesma violência com que o peixe que morde o anzol leva o esticão, e caíra precisamente com a costela partida. Não me consegui levantar, o Sol nascia quando encontrei forças. A besta jazia ao meu lado, com um estranho esgar na boca. Parecia um sorriso...
Afastei-me do local, lentamente. As dores não me permitiam mais. A uns bons vinte metros do corpo, voltei-me para o olhar novamente. A luz do sol estava prestes a banha-lo, e à luz do dia, a criatura era ainda mais assustadora, não estivesse morta. Não consegui reprimir uma certa sensação de satisfação comigo próprio, por ter derrotado tamanho oponente. O seu pelo ainda não perdera o lustre, parecia prestes a acordar. Foi então que a luz o tocou, e nesse preciso momento, a carcaça estremeceu e ressequiu-se, como se estivesse no forno. A pele engelhou-se, e gradualmente desapareceu. Ficou o esqueleto e um nauseabundo cheiro a carne podre. E a cabeça. Intacta.


E agora, ali estava eu, enraizado na pedra negra, e ao olhar para o lado, a visão mais aterradora que alguma vez tinha visto -- e sem contar com o facto de estar manietado. Um gigante Urso esquelético, com um coração negro como ónix palpitando no vazio do seu torax, suspenso, e uma cabeça felpuda e sorridente, com o queixo do lado de cima. As suas orelhas felpudas e pontiagudas, apontadas ao chão, retorciam-se na direcção da minha respiração. Estava cego.
Logo de seguida, sobre a sua garganta, aterrou uma coruja, branca como pura luz, vinda do nada.
Ambos me fitavam, apesar de o Urso ter as pálpebras fechadas, e de ambos os olhos partir uma breve linha vermelha absolutamente recta, de sangue seco, simbolizando a sua cegueira, que lhe acabava na base das orelhas. Então, em coro, falaram.

Três são os teus pecados, e duas as tuas virtudes. Estamos aqui. Que tens a dizer-nos?

1 comentário:

Medusa disse...

ainda me interrogo... de que parte de ti, sairão estas coisas. quem tem medo do lobo mau? quem não tem sei eu quem é xd