Se havia coisa que admirava na Morgan era a sua dedicação a tudo o que fazia. A precisão de cada movimento, a perfeição espelhada em cada gesto.
Detestava que fosse caçar. Ao contrario de mim, nunca seria capaz de viver como uma carniceira, degustando corpos mortos e vegetais. Talvez fosse essa a minha herança como demónio: não voltar a matar. Ajudar a Terra a devorar a morte e os mortos.
Ela não conseguia, nem eu esperava isso dela. Por isso, a cada dois dias separava-se de mim. Não me dizia uma única palavra, e fazia questão de regressar sem me fazer notar o que havia feito. Eu sabia o que ela fazia, já o fizera também. Sabia a sensação. Mas nela era diferente. A precisão com que matava, a perfeição de todos os pormenores, desde a preparação ao último golpe. Tudo nela era milimetricamente executado, com exactidão tal que nela, matar se tornava uma arte.
Tenho perfeita noção que nunca serei como ela. Sou um ser feito de uma massa pior, e não o nego. Mas se pudesse aspirar a ser alguém diferente, seria como ela.
Um ser em que tudo é belo, até o assassinato.
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