A minha vida sempre fora entediante. Muito poucas coisas no mundo me trazem prazer, muito poucas valem o esforço de serem feitas. Nunca entendi as brincadeiras do resto dos bichos, nem mesmo as dos lobos da minha própria alcateia; eram parvas, implicavam fazer coisas que não interessam nem aos corvos, e as gargalhadas no fim eram secas e efémeras. Nada neles persistia para alem do ultimo eco do riso. Tudo morria no preciso momento em que devia ficar uma boa recordação de alguma coisa. Esse momento esfarelava-se. E mesmo eles não o percebiam, o que sempre me incomodou um bocado.
E agora, bruscamente no mesmo dia, duas coisas magnificas acertam-me em cheio: estar vivo... e ela. A segunda, claramente mais importante.
Estar vivo era uma incógnita escura e impenetrável. Depois de todo o delírio, da sentença, de tudo!, só me restava morrer. Tinha a leve sensação que não era útil desperdiçar mais tempo nos meandros desta questão. Mais cedo ou mais tarde a resposta viria ao meu encontro.
Agora... ela! Era-me completamente impossível esquecer aquela figura. A tentação de me aproximar de todos os recantos sombrios por onde passei no ia seguinte, na esperança de encontrar agachada no seu seio uma linda jaguar negra com olhos de mel era torturante. Vagueei tempo demais durante o dia, caçando o sonho que se escondia atrás das arvores e dos arbustos, escondida na névoa da minha ansiedade, que me esqueci de comer. Quando dei pelo volume da minha fome já começara a escurecer, limitei-me a ceder ao fraquejo das minhas pernas e aninhei-me um canto, para passar mais uma noite.
Um coelho morto cai mesmo em frente ao meu nariz, com um baque surdo na neve.
Para ti. – num so gesto rebolei para cima das patas, os olhos postos no céu. Em cima, no topo de uma pedra uns passos mais á frente, estava ela. O seu sorriso resplandecente a fazer-me tremer as mãos.
A que se deve tão suculenta prenda?
Não caçaste o dia inteiro.
Eu não caço. Nunca voltarei a matar. – ela olhou-me surpresa.
Não te habitues. Não vou ser o teu restaurante para sempre.
Nem te peço que o faças. Sobrevivi até hoje, não foi? – ela torceu o nariz: eu estava muito magro.
Gostas muito de passear – observou. – andaste muito, hoje.
Tinha muito em que pensar. – a minha voz era insegura, e eu não a conseguia dominar.
Hmmm. Em que? Posso saber?
Esta ia dar-me algum gozo – Não é da tua conta.
E se eu quisesse muito que fosse? – A maneira como inclinou a cabeça proibia-me de lhe mentir. O poder que tinha sobre mim fez-me suspeitar se ela poderia ser um demónio.
Estive a pensar em ti. – foi apanhada de surpresa.
Porque?
No dia em que o perceber, digo-te. Se ainda estiveres por perto.
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