Durante demasiado tempo procurei “pensar em tudo sobre tudo”, como disse uma amiga minha. Tentei entender os detalhes em todas as coisas mundanas, tentar ler as entrelinhas de todas as frases que me diziam ou que ouvia dizer. Pensava que assim estaria a desfrutar melhor de todos os pormenores que a vida tinha para mim – como se tivesse o que quer que fosse guardado para mim, para alem de trabalho e desilusões. Esforcei-me por ser mais adulto, mais responsável que os restantes da minha idade, tentei ser mais culto, ser mais conhecedor, ser mais. Li, escrevi, estudei. De nada serviu.
Hoje dei por mim a admirar a serra da estrela a 40km de distancia. Em contraste, uma colina de pinheiros bravos, a uns 2km de mim. E dei por mim a pensar no absurdo que me tornei. Não, não estava a ver como a serra é bonita, como os pinheiros são equilibrados e de um verde fulgurante neste dia de quase verão no interior de Portugal. Estava a admirar como os meus olhos são incapazes de calcular as distancias, e que so sabia que eram 40km porque sabia os troços de estrada necessários para lá chegar e sabia a kilometragem de cada um, estava a somá-los quando dei por mim.
E é absurdo. Sou absurdo, tornei-me irrisoriamente insensível. Tornei-me incapaz de perceber o que quer que haja de puro para admirar, sem estripar, esventrar e quantificar tudo. So a musica me fala puramente ao espírito, nada mais. Nem pintura, nem escultura, nem qualquer outra arte humana. Os livros que me marcaram foram os mais tecnicistas: “admirável mundo novo”, “1984”, “As vinhas da Ira”. Claro que adorei “o triunfo dos porcos”, “A um Deus desconhecido”, “Deus dorme em Masuria”, “Crepúsculo” e até Tolkien. Mas deixei de ser capaz de apreciar uma saída à noite, uma paisagem, um cigarro, um bom jantar, a companhia de alguém que me seja menos que essencial à existência. E pessoas gritantemente indispensáveis à minha sobrevivência emocional há muito poucas, como deve ser óbvio depois deste texto.
Agarro-me a sonhos e projectos de vida insípidos, como ter um carro desportivo caríssimo, ou ser um musico brilhante e executar as obras mais complicadas. Projectos tecnicistas de uma pessoa muito diferente da que sonhava apenas encontrar alguém que a fizesse viver um romance magnifico e cometesse as maiores loucuras.
Não sei o que fiz de errado, onde me enganei na curva, ou se simplesmente ainda não encontrei a pessoa certa para me fazer sentir que tudo isto vale a pena. Quem sabe, tenho so andado a relacionar-me com as pessoas erradas. Ou então falta-me alguma peça aos meus pensamentos, que vai de certo fazer com que tudo encaixe de repente. Ou então andei a esforçar-me por perceber a verdade, e a verdade é que o mundo é de facto uma coisa sem grande piada.
Mas isto já é a minha cabeça tecnicista a fazer o que está habituada...
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