Pecado!! -- anunciou o Urso, em voz sentencial. – Partiste. Abandonaste-te à solidão de não quereres uma alcateia ao teu lado.
Uma alcateia que nunca me quis! – retruquei logo de seguida. – Uma alcateia que não era como eu, mas me obrigou a ser como eles.
É a tua natureza. – interrompeu o Urso – E ainda assim nega-la?
Naturalmente. – respondi com frieza. Se não tivesse as mãos enterradas no chão ter-lhe-ía arrancado a cabeça segunda vez.
Virtude! – clamou a coruja. – Não te perdeste. Podias ter degenerado, mas não o fizeste. Nunca seguiste o caminho mais fácil. Preferiste pecar.
O Urso roncou. – Pecado! – bradou mais uma vez – Ele matou! Por isso se tornou um demónio. Não se livrou disso! Como podes dizer que não se arruinou?
Na verdade tinha-me arruinado, indubitavelmente. Nunca mais poderia fugir dos olhos daquele caribou, nem do seu ultimo estremecer.
Quantos matou ele por ser um demónio? – continuou a coruja, do topo da cabeça invertida do Urso, no seu tom sereno. – Também tu és um demónio, não serves para a contagem. Para mais, foste tu que o provocaste. Sabes bem que ele teria fugido.
Mas a caça...
Ele ainda era um lobo. Matou entre os vivos.
Talvez tenhamos convocado o julgamento cedo demais...
Achas que ele matará de novo?
Se lhe deres tempo... a fome vai consumi-lo. Todos matam. – Terminou o Urso, a sua voz era cavernosa. Havia quase pesar, no tom que imprimia nas palavras, nostalgia.
Ainda assim, não o fez. Virtude! – Piou a coruja bem alto.
Tudo aquilo era tão estranho... Não fazia mínima ideia do que poderia seguir-se, quando aqueles dois acabassem de discutir o meu cadastro. No entanto, não duvidava por um momento que fosse da veracidade de tudo aquilo, nem da inevitabilidade das consequências. O meu peito começava a ser pequeno para o meu coração receoso.
Os dois seres cessaram a conversa, encararam-me a direito de novo. A coruja fechou os olhos e curvou a cabeça. Era como se tivesse partido.
Resta-me um. – continuou o Urso, que parecia rir, apesar da cabeça ao contrario – Pecado! – vociferou – Estás vivo.
As palavras apanharam-me de surpresa. De todas as acusações, aquela seria a única que não esperava. Que devia eu fazer? E logo agora que a coruja me fazia tanta falta, era como se sobre o pescoço torcido do Urso esquelético estivesse um cepo branco, inerte e inanimado!
Não havia mais nada a fazer. Tinha sido agradável, o tempo que me havia sido dado, e o que tinha feito com ele. Todas as minhas certezas ganhavam corpo, naquele momento e naquele lugar, que eu sabia não existir senão dentro da minha cabeça, do meu espírito, e se alguma coisa aprendera foi que não vale a pena lutar por causas perdidas. Talvez fosse assim que terminassem todas as criaturas que julgamos morrerem de velhas. Com um julgamento dentro de si. Eu aceitaria o meu fim.
A coruja abre os olhos, e como se não tivesse ouvido a ultima e incompensável acusação, pergunta em coro com o Urso, num ribombar colossal dentro de mim:
Três foram os teus pecados e duas as tuas virtudes. Que tens a dizer-nos?
Sorri.
A pedra derreteu-se em neve fina, que se derreteu em agua e me molhou mãos e pés. No momento seguinte eu caia no infinito da minha escuridão, esperando a dor incomensurável do esmagar de todos os meus ossos no chão duro, o choque do meu fim, o muro que filtraria a minha alma do meu corpo, como acontecera a Fernão Capelo Gaivota. E isso eu encarava com um sorriso.
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