domingo, 3 de maio de 2009

Insonia II

A confusão não deixava espaço a mais nada na minha cabeça. Como tinha eu chegado àquele ponto! Ter-me deixado transformar num demónio...

A primeira coisa que tens que decidir, meu caro – continuava a coruja – é o que vais fazer daqui para a frente. Perdeste a pureza dos mortais. Nunca mais serás um deles. Tens que decidir o que fazer com aquilo que te foi dado.

Mas nunca pedi nada disto. – o meu coração só agora começava a acalmar.

A coruja abanou a cabeça em reprovação – Não me venhas com essa conversa. – e as suas penas escureciam visivelmente – Todos dizem isso. Como se isso importasse. Agora és o que és. Acabou. Segue em frente.

“Que opção tenho?” pensei ironicamente. – Podes deixar-te corromper. – disse a coruja, lentamente. “Como raio ouviu ela...” – Ou podes saltar de um penhasco. – continuou rapidamente, interrompendo – Mas como já lá estiveste tanta vez, com tantas mais razões para saltar do que agora, e nunca saltaste, não me parece que vás por ai.

Como raio sabes tu isso? Andaste a seguir-me?

Como se não tivesse mais nada que fazer... Digamos que não és o bicho mais sorrateiro que por aqui anda. Só isso. – Não consegui evitar um ronco de frustração.

Bem, vou andando. – disse ela.

Que foi que vieste fazer, afinal? Chatear-me?

Ela sorriu com os olhos, o bico bem cerrado – Vim dizer-te o que és. Precisavas saber. – E com um estrondo desapareceu, quebrando o ramo em que tinha pousado. Uma chuva de folhas arrancadas caiu sobre mim.



Andei durante horas, até o Sol nascer. O dia estava encoberto. Negras nuvens cobriam toda a extensão por onde vagueava, e a chuva ameaçava desabar sobre mim.

...
A razão diz-me que devia partir. Antes de me perder de vez, devia sair daqui antes que as árvores se fechem sobre mim. Para longe de tudo, procurar novas lutas, novas matilhas. Partir à procura de mim mesmo. Longe de tudo o que tenta dizer-me que sou isto ou aquilo.
Sento o rabo na noite fria e recolho cuidadosamente a cauda. É o meu caprichozinho, sou muito vaidoso com a minha cauda. O vento arranha violentamente as copas das árvores despidas, mas de resto é a única coisa que se ouve. Está demasiado barulho, não consigo ouvir o que vai dentro de mim. Instintivamente olho para o céu à procura do apoio, logo me lembro que a Lua não está ali. Podia haver uma abertazinha só...
Desta vez vou ter que tomar as decisões à má fila. Levanto o traseiro felpudo, decidido a fazer as malas. As patas não saem da neve. Nenhuma das quatro. Algo me prendeu, talvez o próprio manto branco. Não resisto a soltar uma gargalhada sinistra. Se estavam à espera que entrasse em pânico, enganaram-se.

...
Sim, já me lembro da coruja.

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