sábado, 16 de maio de 2009

Bilhete de ida e volta.

Harpa. Eu ouvia uma harpa. Mas não como se imagina a harpa dedilhada em melodias deliciosas, eram apenas harmonias. Acordes tirados com cuidado, um agora, outro logo depois, uma breve pausa antes do terceiro.
“Afinal devo ter merecido uma entrada no paraíso, só para ver como é, antes de ser recambiado para o andar debaixo.”
Depois veio a consciência dos membros. Ainda tinha pernas, braços, e respectivos apêndices no fim. Abri os olhos num ápice, e ali estava ela. Observava-me à distancia, no seu jeito acanhado que mais tarde aprendi a amar.

Bom dia, dorminhoco.

Não podia ser possível. Estava uma pantera a metros de mim, a cabeça repousando sobre as patas da frente. Ela ria-se da minha cara de parvo.

Isso é que foi uma soneca, hein? – de um pulo pus-me de pé. Há que ver que para quem julgava que estava morto, isto era um experiencia estranha. E nem por isso longínqua da primeira.

Ei, bicho! Tem calma. Se quisesse matar-te tinha-o feito no primeiro dia!

Primeiro dia?

Sim, dormiste quase uma semana. A primeira vez que aqui passei, parecias morto. Mas quando passei para trás, espirraste.

Espirrei?

Sim.

Era inacreditável... o aspecto mais visível da minha morte, for um espirro! – Isso é tão estranho...

Pois, eu sei, os mortos não espirram... – disse ela, as palavras envoltas em mais um gesto deliciosamente ingénuo. – Foi por isso que no terceiro dia voltei cá. Continuavas a dormir no mesmo sítio. – a minha expressão devia definir um novo patamar para o conceito de “incredulidade” – pois, eu também achei estranho, era um sitio esquisito para dormir, mas como tu não acordavas, eu achei que devia ficar a guardar-te. Para não te comerem.

Obrigado... – eu nem sabia bem se nestes casos se agradece.

Bem, já estás a pé, vê se te cuidas. – e virou costas.

Não! – fugiu-me da garganta – Espera... para onde vais?

Ela sorriu – Não é da tua conta. – não dizia por mal. Era apenas uma constatação.

Mas... e se eu quisesse muito que fosse? – ela pareceu admirada. Os seus olhos semicerrados, em forma de virgula, eram a coisa mais fascinante que vira na vida.

Fez-se um momento de silencio. Os meus olhos imploravam por algo que nem eu sabia bem o que era, e os dela mediam os meus. Inclinou a cabeça, de lado, e as minhas pernas fraquejaram. Ela riu-se, divertida, muito baixinho. Então levantou-se, os olhos colados em mim, e – bênção dos céus – sorriu.

Até amanha, preguiças. – disse; e desapareceu com um gesto ágil, tão fluido que me foi impossível segui-la.

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