O inverno apossara-se de toda a floresta. Negras nuvens cobrem toda a extensão por onde vagueio, e a chuva ameaça desabar sobre mim. Nada me salvará desta vez. Há meses que não vou à clareira, nada me prende lá. Nenhum urso tentou matar-me, nas ultimas semanas, nem nenhum lobo veio á minha procura. Nenhuma coruja veio profetizar o meu fim, piando dum ramo mais alto, prevenindo-me dos venenos que tão ardentemente lutam por me invadir as veias. Estou verdadeiramente só, e o inverno priva-me de todas as certezas que a Lua me dá, sempre que a olho. As minhas convicções desmoronam-se como castelos na areia... o que me resta aqui?
Nada.
A razão diz-me que devia partir. Antes de me perder de vez, devia sair daqui antes que as arvores se fechem sobre mim. Para longe de tudo, procurar novas lutas, novas matilhas. Partir à procura de mim mesmo. Longe de tudo o que tenta dizer-me que sou isto ou aquilo.
Sento o rabo na noite fria e recolho cuidadosamente a cauda. É o meu caprichozinho, sou muito vaidoso com a minha cauda. O vento arranha violentamente as copas das arvores despidas, mas de resto é a única coisa que se ouve. Está demasiado barulho, não consigo ouvir o que vai dentro de mim. Instintivamente olho para o céu à procura do apoio, logo me lembro que a Lua não está ali. Podia haver uma abertazinha só...
Desta vez vou ter que tomar as decisões à má fila. Levanto o traseiro felpudo, decidido a fazer as malas. As patas não saem da neve. Nenhuma das quatro. Algo me prendeu, talvez o próprio manto branco. Não resisto a soltar uma gargalhada sinistra. Se estavam à espera que entrasse em pânico, enganaram-se.
-- Não podes fugir mais. Não és um gato, tens que decidir ainda nesta vida.
Que se lixe. Nunca foi no calor da fervura que decidi o que quer que fosse, mas se a isso me obrigam, não posso levar ninguém atrás.
-- Não esperes que leve ninguém às costas. Isto agora é entre tu e eu.
O vento assentiu, com uma rajada que me atingiu de frente, e eu aplaquei-a de peito feito e sem fechar os olhos.
É luta que queres, vais tê-la.
1 comentário:
já me é dificil comentar-te por mil razões... e parece que tenho sempre necessidade de dizer algo que valha a pena... mas depois olha, fico "muda". Portanto digo apenas o que sabes... gosto imenso do que escreves e como escreves. E cá venho eu de vez em quando reler umas coisas... quando há falta de actualizações da tua parte xd e gosto deste texto particularmente! :D
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