Estava farto. Realmente farto. Farto de tudo, de aturar, de estudar, de trabalhar, de conviver, de falar até. Farto de viver. Era como se em dado momento tivesse enfiado a mão no bolso e percebido que perdera as chaves de casa. Primeiro, o pânico, e logo depois a urgência de encontrar uma solução, seguida da constatação da irremediabilidade, mas sempre numa progressão cada vez mais conformada. Tão amarga. Não sabia ao certo quando me começara a sentir partir, quando essa parte de mim desistira de ficar, e me deixara desapoiado, mas quando reparei, já não estava. Então, cansado, voltei a ler. Algo estúpido. Algo que não tratasse de politica, ou da segunda guerra mundial. Algo prosaico. Algo que fosse credível, simplesmente pelo facto de não tentar retratar algo que posso vir a acontecer, ou que se mostre provável, por muito louco que seja. Um romance tolo, sublime. Tinha fome de livros como um vampiro tem de sangue, absorvi cada detalhe, cada descrição, cada frase. Tudo era mais denso do que parecia à primeira vista. Então reparei no mais delicioso de tudo: voltei a querer escrever, a encontrar brilho nas coisas mais parvas, a escutar verdadeiramente a musica... e mais tarde me confessaram, a ser deslumbrante. Os meus olhos – disseram-me – estavam mais vívidos, mais irresistíveis e arrebatadores que nos últimos tempos, e eu de facto sentia-me capaz disso. “Na procura dos outros perdi-me a mim mesmo”, finalmente esta frase fazia sentido e eu sentia-o.
Ah, e finalmente encontrei uma coisa que realmente me sabe bem.
2 comentários:
Desculpa-me a invasão, tinha que comentar senão não comentava e ficava só com a vontade estúpida e apertada. =x
Escrita dos fundos, como se quer e se deseja. Não encontro outra grande utilidade para a literatura, que não o caminho para nos irmos reconhecendo.
Cumprimentos da Pseudónima.
Invasão mais que bem-vinda! Tens andado desaparecida, minha cara. E ja agora, se alguem tem essa escrita, muito antes deste blog, ja o tinhas tu. Com alguem tive que aprender XD
Obrigado pelo teu apreço
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