Era noite cerrada, e o frio era tanto que os corpos abriam caminho por entre as brumas do gelo. Os pés como lanças na neve, os olhos como garras na noite. Havia algo mais escuro ainda que o breu, prestes a saltar sobre a escuridão. E atrás seguia um pedaço de inocência. A cada passo que dava, mais o pecado lhe sugava as veias, torcendo o medo ate ele partir e se transformar em crueldade. Mas nada havia que se pudesse fazer; "Assim é a vida, tal como a morte". Os vultos eram oito, mas na verdade eram só um. Todos os oito braços daquele corpo sabiam qual era o movimento que lhes seria pedido, e tal como uma mão não luta contra o seu braço, também eles sabiam que o fariam. Aquilo que podia salvá-los a todos havia sido torcido até partir, e o cimento em que isso se transformara não os deixava dobrar a espinha para trás, e assim não podiam morder senão para a frente.
"Mexe-te!" dizia um deles, e o número oito apressava o passo. "SHHH!!" fazia outro, e o número oito atrasava o passo, mais cuidadoso.
"Número oito... é o que serás esta noite. Lembra-te..."
Tal como uma brisa que cessa, o grupo parou. Os sete remoinhos de neblina e o pequeno trambolho não eram mais que vultos numa noite sem lua, um restolhar surdo que não existe, um medo cego que não faz barulho ao chegar, e só os outros ouvirão ao partir.
"Quero o do rabo sem pelo" disse o numero um, atras deles, e as palavras atravessaram o floco de neve como um fantasma que atravessa paredes. A brisa soprou e varreu em silencio a superficie da neve, sem pegadas, sem ruidos. Aqueles lobos eram um mero presságio, um pesadelo irreal, uma sombra atravessando as sombras. O pequeno paralizou. Os outros avançavam sem sequer olhar para trás, passando por ele anónimos, sem rosto, sem alma, sem calor. Nem o número um ele reconheceu, quando esse passou por ele e o olhou com o rosto coberto de escuridão, sem proferir uma unica palavra. Antes que desse conta, estava sózinho, na noite em que os lobos se perdem.
"Oito, é um número que não existe. Lembra-te..."
Olhou à sua volta, já nada era como ele se lembrava. As árvores pareciam inclinar-se sobre ele, abrindo ângulo para que um mocho disparasse um pio como uma seta. Ele tremeu, e a neve sob ele abateu ligeiramente, como se o fosse engolir. Teve medo, saltou para tras e pisou um galho seco que estalou e ribombou como um canhão demoniaco. Ouviu movimento, mesmo à sua frente. Alguém arfou, a metros dele, e parecia um bicho grande. Silêncio. Onde estavam todos? Ouviu um bater de asas diluido no escuro sem ter visto nada, virou-se de repente assustado com o eco. Estariam a caçá-lo a ele? Terror. Quer fugir mas não se lembra de que lado vieram, e o medo gelado que lhe corria nas veias não o deixava mexer-se.
"Mãe?" perguntou baixinho, mas a escuridão ampliou o rugido e levou-o aos quatro cantos da floresta, e as creaturas à sua frente ouviram-no como se lhes tivesse segredado a pavra "morte" ao ouvido. Agitaram-se e ele ouviu passos. "São voces? Estão aí?", e começou a avançar. Tres passos bastaram para vislumbrar o caribou com as duas crias a sua volta. Não eram maiores que ele, nem mais velhos, e um deles não tinha pelos na cauda.
"Lembra-te..."
Uivos. Vinham de todo o lado. A noite era rasgada por gritos e lamentos chorosos, como se a morte tivesse já chegado. Serviços fúnerários e extrema unção. Os caribou fugiram e no segundo relance a noite tinha-os engolido, e ele estava sozinho outra vez. Correu sem saber para onde. As pernas tinham ganho vida e ele não sabia sequer se aquela noite tinha saída. Tanto quanto os olhos lhe diziam podia estar a correr às voltas. Corria desenfreado, tropeçava em tudo, feria as patas e a neve, já não era brisa, como os seus, mas sim um rochedo pelo abismo abaixo.
"Idiota.", sussurrou uma alucinação que atravessou o seu caminho a poucos centimetros do seu nariz. Era um lobo. Outros o seguiam, irreais, correndo sob o manto da noite que ondulava como marca da sua passagem; e era essa a unica marca da sua passagem, uma mancha mais escura na noite.
Sem razão nem vontade, perseguiu-os. Eram a unica ligação à realidade que tinha naquele pesadelo sem norte. Até que o pesadelo acabou, para começar outro.
Sete lobos seguravam uma cria de caribou por sete pontos estratégicos. O sangue dele gelou. Neve negra corria-lhe nas arterias, e escurecia a cada pulsar do coração. Sete mandibulas no corpo da presa e catorze olhos nos olhos dele. Todos gritavam o mesmo. O gelo dentro de si começava a torce-lo. Cheirava a sangue, cheirava a morte, e ainda ninguem tinha morrido porque o caribou ainda estremecia sob os caninos afiados como agulhas, ao mesmo tempo que o número oito estremecia entre as agulhas do destino. Ele perdera-se na noite, como temia.
"Essa lição não posso ensinar-ta, por muito que te ame."
Avançou lentamente. Sentia que a cada passo que dava algo lhe escorregava do peito, numa última carícia, um último roçar no seu pelo, para se afundar para sempre no frio, escorregar como rochedo no abismo do seu próprio medo e perder-se enquanto o via cair. Algo que nunca mais poderia encontrar, em noite alguma. Tinha-se perdido, e não mais encontraria o dia, porque não tinha sido capaz de resolver os mistérios. Faltara-lhe a serenidade. Por isso avançava devagar. Respirava cada vez menos, cada vez menos vapor lhe saia do corpo cada vez mais frio, sem vapor para expirar. A parte de si que deixara cair olhava-o detras dele, mas o cimento não o deixava dobrar-se para se virar.
Ironia... sete lobos numa presa, e nenhum mordera o pescoço... E os catorze olhos troçaram dele.
Afinal é so apertar.
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