"Olha à tua volta", disse o ancião. "Tudo na tua vida será como esta floresta."
O pequeno lobo olhava-o como se ele estivesse no topo de uma arvore, e ele não lhe conseguisse chegar, e o ancião, ciente do efeito paternal, mantinha-se aprumado, sentado nas patas de tras, muito erecto, de tal modo que o pelo farto sob o pescoço ondulava ao sabor da brisa.
"Observa, pequeno. Primeiro nasce o dia. Com a luz, tudo será perceptivel ao teu olhar. Uma pedra é uma pedra, uma árvore é isso mesmo, uma árvore. Tudo será claro, nada engana, tudo é puro. Depois virá a tarde. Com as sombras do sol posto, duvidarás de aquela silhueta será mesmo so um rochedo, ou se será um coelho gigaaaante!" - o pequenote ria-se, divertido com a façanha, mas logo o mais velho se endireitava e, cofiando o pelo liso junto à orelha, atraía-lhe de novo a atenção. - "Também as cores do horizonte mudam, com o entardecer." A sua voz tornava-se grave. "São as mesmas coisas que viste de dia, mas... diferentes. Aquilo que fora azul, agora é vermelho. O cheiro das coisas é o mesmo, mas não te cheirará aquilo que esperas. A frescura desaparece e sobrepõe-se a grandiosidade do sol que se põe, em todo o seu explendor, para te mostrar quão pequeno és. Quão himilde deves ser." Breve pausa. "Depois vem a noite." O velho lobo olhava para o seu neto, que herdara os olhos castanhos da sua linhagem, o pelo hirsuto de juventude. "Na noite nada é o que parece. Mesmo que conheças o sítio, saibas o que são todas as coisas que te rodeiam, aos teus olhos nada será o que era de dia. À serenidade segue-se o mistério. E é na noite que os lobos se perdem. Quando tudo o que ves te parece estranho, quando dentro de ti nada te indica o caminho. quando mesmo os outros lobos não parecem da tua raça." Olhavam-se nos olhos, agora. Olhos serenos nos olhos rabinos, olhos curiosos nos olhos indecifráveis. Havia perigo nas palavras que quebravam o silencio, e por isso o avô passou a pata sobre o jovem mas não o puxou para si, pois há formas maiores de estar perto. E então continuou. "Ouve o que te digo, pois já mo ensinaram a mim: do dia para a tarde, leva a luz. Da tarde para a noite, a serenidade. E na noite, procura dentro de ti as respostas para os mistérios, pois só assim chegarás ao dia outra vez."
"Isso quer dizer que se não conseguir vai ser sempre noite?" perguntou a cria, confusa e assustada. O outro sorriu.
"Olha para ali. Para o caminho. Ves as nossas pegadas na neve?" Ele olhou, mas não percebeu, e devolveu o olhar ao avo. "Olha... Observa com calma."
Vários minutos passaram, com a neve sempre caindo sobre eles. O avô ía-se sacudindo, e o mais pequeno imitava sem jeito, e acabava por cair para o lado, enleando-se ainda mais em neve. Então o avo moveu-se e sentou-se atras dele, para o esconder debaixo do seu peito. "Olha agora. Quantas linhas de pegadas vês?" "Uma... a tua." " E isso quererá dizer que não vieste até aqui? Ou quer dizer apenas que és mais leve que eu, e por isso as minhas pegadas mais pesadas, levam mais tempo a desaparecer?" O avô suspirou numa baforada de vapor, que o mais novo seguiu atensiosamente com os olhos, como se tivesse perdido uma frase. "Quando cresceres, caçarás em grupo. Dormirás com a tua companheira, escondendo os teus filhos da neve debaixo de ti. Mas estarás sempre sozinho. Essa é a lição que terás que descobrir por ti, na noite. Essa, por muito que te ame - e amo - não te posso ensinar. A única certeza que podes de facto ter na tua vida é que estás aqui. De onde vieste... qual o caminho que escolheste para cá chegar... Nada disso interessa. Mais cedo ou mais tarde a neve apagará os teus passos e os passos dos que vieram contigo. Preocupa-te em estar no sitio certo, não em percorrer o caminho certo. Porque no fim, estás sozinho, e só tu sabes por onde vieste. Tu e a neve." O pequenote aconchegava-se contra a pata do avo. Pelo frio, pelo receio das suas palavras. "Quando tiveres aprendido isso com a noite, a luz do dia tornará tudo mais simples."
Então o avô sorriu, sem olhar para o seu neto, à espera da pergunta que também ele fizera, anos atras.
"Posso ir brincar, agora?"
6 comentários:
Os meus anti- depressivos são outros. Sou saudável e tento ser feliz. =)
Gostei muito dos teus textos, principalmente deste. Tão sensível e, ao mesmo tempo, tão cru.
Hi wolf. No, I don’t speak or read Portuguese, unfortunately, with keeps me from Fernando Pessoa’s work in the original language, but I do know of his style. I’ve always written this way, but a friend of mine, after doing an intense research document on Fernando Pessoa realized the similarities. From what I understand, Pessoa used heteronyms as different authors to write, and each heteronym was a different aspect of himself. I, on the other hand, write from the same perspective, but use different characters as unbalanced fragments of myself. So Pessoa’s heteronyms are at a very high level, and far reaching, while mine are more local.
And, from what I understand my friend telling me, Alvaro de Campos is a heteronym that represents the darker side of everything, from the future to technology. “ I'm nothing. I'll always be nothing. I can't want to be something. I have in me all the dreams of the world nevertheless.”
Its wonderful to find someone who caught on to my Fernando Pessoa reference so quickly! I only wish I knew enough of your language to read your works in their natural state. It was a pleasure speaking with you, and I hope to do so again soon.
@victoria:
youre quite right about Pessoa. he had several "faces", and he kept his shelf tidy by signing each of his styles under a diferent heteronym (and not hetheronim, im sorry). though you and him are in some aspects alike, he is sharper, more cruel with his own feelings (I dont believe like most teachers tried to convince me, that he didnt feel, that he just had a lot of talent and wanted to try diferent styles. and thats why I love him so much. anyway...) while you are a little darker. Alvaro is not dark, as your friend said, at least i dont see him that way. he doesnt weep because of the forseen apocalipse; Istead he merges his hands in the rotness of the world that surrounds him, trying to understand why.
Anyway, its good to know we both have similar ways to see the world, and like the same writters, at least for now.
Ill keep up with your blog, maybe one day I take an adventure in english and you can come read too.
@pseudonima:
sensivel e cru? Não sei o que te diga... Por um lado não é nada isso que eu sinto quando o leio, mas por outro não é nada dificil perceber porque dizes isso.
Obrigado pelo comentário, a serio. É muito bom ter opiniões de fora, ajuda sempre, mesmo que seja num pormenor estupido.
Pormenor estúpido? E agora sou eu que não sei o que te diga...
Continua a querer evoluir.
coisas que não quero contar. Talvez num post futuro...
lembraste-me de coisas que não têm nada que ver (e no fundo têm tudo que ver) com o texto.
Obrigado pela companhia no blog.
Ps - estou a espera de mais no Coração! Leitor assiduo embora silencioso, aqui. :)
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