A minha mãe diz-me sempre que é da idade. Este vómito cru, a bruxa má de ser quem sou e não curar, por não querer curar, por não querer lembrar-me das cinquenta mil curas que há para os piolhos, querer ficar como estou... Correr as cortinas e apagar a luz, impedir os olhos de ver mais, lutar contra as coisas que invadem a minha retina, querer deixar sair, só, em gotas secas e cruas, chorar para o lado de dentro da pele.
É da idade. Pensar demais, pensar no que é um bife em vez de o comer e come-lo frio de tanto pensar, deixar que me levem o prato porque demorei muito nas minhas conjecturas acerca da fibra, dos talheres, do guardanapo...
Deixem. Não há dor que não acabe. Vou partir-me o osso e estilhaçar-me a dor lá dentro. Tudo por outra coisa mais real, que se possa trocar por um pacote de batatas fritas sem o medo do pecado cínico que é estar certo ou estar errado. Não gostas, tens outros sabores. Presunto, insónias, entranhas cuspidas com peperoni, a agonia arrancada a ferros porque nem isso tenho o direito de sentir. Exacerbado?... talvez. Eu não sou assim, nunca me preocupei em ter nomes para tudo, muito menos para os dias que passei de joelhos, a gritar ao céu em carne e sangue, até me vires arrancar as cordas vocais com as unhas, para eu continuar mas agora em silêncio.
Não vale a pena pois não?
Come antes outra coisa. Agora há uns snacks à base de raiva... nunca experimentei, mas sempre foste uma promessa mais promissora ao prometer que experimentavas. Depois diz-me. Não partas um dente.
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