segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Também os sonhos mudam

Em tempos teria gostado mais de ser gato. – contava eu a Morgan. Ela voltou, era de noite; o seu andar delicioso apertava-me o coração, de tão meigo, a balouçar a silhueta que se recortava no escuro. Vi-a chegar porque ela me acordou, teve a cortesia de arrastar um pouco os pés nas folhas mortas para que eu acordasse, ou nunca a teria sentido senão quando enroscou o seu corpo fofo no meu. Assim tive o prazer de a ver, e guardar para sempre a visão das suas curvas, tão minhas. – Queria ser gato, porque queria ser perfeito, e tudo em ti é perfeito. Desde os teus movimentos à tua visão. – Ela sorriu, mas não me interrompeu. Nem precisava. Eu sabia o que ela ia dizer. – Desde que te conheci que isso mudou. Prefiro ser lobo. – Ela não falou, e no entanto disse-me que não me compreendia. Só com os olhos. – Esses teus olhos lindos vêm com excelência e precisão. A noite é para ti dia. Para mim não. E agrada-me o facto de ser finito; eu não saberia, aliás, o que fazer com tanta perfeição. Assim, aprecio a vida de um ponto de vista mortal, e toda a minha compleição mo lembra todos os dias. De resto, de que serviria um amor perfeito se nunca acabasse? Nunca seria capaz de o apreciar, se soubesse que nunca o havia de perder. Assim tem valor, a vida. Serve para ser feliz enquanto a morte não chega.


Ela não me respondeu, nem tão pouco me abraçou. O nosso entendimento transcendia o gesto. Este tornava-se obsoleto. Eu tinha a certeza que ela me entendia, e ela, a certeza que eu o sabia. Deitou-se, para que eu a aconchegasse.

A minha imperfeição lembra-me o quão perfeita é a minha vida, enquanto te tenho, Morgan. Ensinaste-me a gostar de mim. – sussurrei, mesmo antes de adormecer.

1 comentário:

paula disse...

Gosto particularmente deste.
Tem tanto de leve quanto de forte, que é como quem diz, caminha nas folhas sem se fazer ouvir...