Cruzei-me com ela uma vez apenas. Naquele café onde costumava ir todas as manhãs, no meu ritual de começo de dia. Gosto de rituais. Gosto da forma suave como impõem marcas na minha vida, marcas mágicas e só minhas. Tomar o café naquela mesa todas as manhãs é como um alinhamento dos shakras, o reunir das forças dispersas para enfrentar mais um dia. O café é o meu mantra, a chávena as minhas campainhas.
Nunca deixo que me interrompam os rituais. Ela, no entanto, chegou perto de mim e perguntou, breve e delicadamente como se soubesse que estava perante um momento importante, se podia levar a cadeira. Assenti com um gesto e ela virou costas nesse mesmo momento.
Fiquei a observa-la por um pouco. Sentou-se sozinha, pediu um café, mexeu a colher com concentração, e pousou-a sem a fazer tinir no prato. Sorveu um pouco e recostou-se na cadeira, de olhos pousados na rua, a observar para dentro de si. Tive medo.
Aquela mulher repugnava-me, tive vontade de me mudar para uma mesa mais longe dela. E assustava-me também. Havia algo nela que me fazia tremer da cabeça aos pés. A conta já estava paga, pago sempre antes. Sai porta fora, esbaforido, pela primeira vez o ritual interrompido a meio.
Aquela mulher era igual a mim, se ficasse mais um segundo naquele café teria que me apaixonar por ela, tal como me apaixonei uma vez...
e não estou pronto.
13-09-2009
2 comentários:
lindo lindo...estou sem palavras!
Gostei muito mesmo...
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