Escrevi já em tempos algo deste género, mas não da mesma maneira. Hoje, com mais vida - será mesmo vida? - e mais peso sobre a cabeça - talvez antes isso - olho para este velho texto, e não vejo a mesma coisa. Antes era indefinido no meu espírito o significado destas palavras - que eu próprio escrevi, é certo - um pouco como a sensação que tenho cada vez que leio O Principezinho. Sim, esse leio-o regularmente, li-o já vezes e vezes sem conta, e demorará ainda até que possa dizer que o entendi. Mas apesar de me ter saído da boca, não era dono da metáfora. Escrevi-a porque a senti, não porque a sabia.
Há pessoas, neste mundo, que se recusam a ser infelizes. Que o são, mas fingem. Há pessoas realmente felizes, capazes de arredar do caminho o sofrimento e os reumáticos e de aproveitar o (pouco) bom que há no mau, ou de aceitar no âmago do seu ser todo o mal e com isso aceitar-se a si próprias e viver de cabeça erguida. Outras há que nem o vêm - ingénuas ou simplesmente estúpidas, crentes ou apenas cegas, não vem ao caso.
Mas há as que sofrem, um sofrimento puro, sem razão, sem porquê, porque sim, porque a dor está lá, esta vida não é para fracos de espírito nem para os demasiado sensíveis. Porque tudo magoa, porque a melancolia é companheira de cama e a tristeza está a aquecer o café da manhã, e pôr um pé fora de casa é pôr também a cabeça no cepo. Mas não sair é estar só, e embora “antes só que mal acompanhado”, a companhia que trazemos no bolso já é má para começar, e a última pessoa com quem queremos estar somos nós próprios. Por isso um “olá” é tão bom de se ouvir, embora ao mesmo tempo nos doa porque sabemos que haverá inevitavelmente um “adeus”, todas as palavras têm dois bicos e ninguém tira positiva a Português hoje em dia, por isso mais vale estar quieto, deixem-me cá no meu canto onde eu também não quero estar.
E essas, de todas estas aves raras, serão talvez as mais difíceis de encontrar. Mas encontram-se.
Encontrei uma, por mero acaso. À primeira conversa reconhecemo-nos mutuamente, gerou-se a afinidade de quem sabe que o outro também faz parte de um clube muito restrito. Encontrámo-nos novamente, e a conversa durou quase oito horas seguidas. Trocámos histórias, gostos, filosofias, enfim, demo-nos a conhecer. Depois disso a conversa acaba, não há mais a dizer. Ambos sabemos que tudo o que for dito terá consequências mais tarde. Ambos preferimos não falar. Acabámos por ficar em silêncio, na companhia um do outro durante outras oito horas, talvez não tanto.
Não que se trate de ter pena de nós próprios. Muito pelo contrário, não faria qualquer sentido a choraminguice infantil de quem sofre levemente. A tristeza que carregamos é a dor de ser quem somos. São assim, simplesmente, as regras do jogo.
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