quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Leio muito em tempo de férias, mas pouco tenho escrito, ultimamente, e isso intriga-me. Tenho as mãos de molho ainda no "Sem olhos em Gaza", do bom velho Aldous, e cada vez que me sento a lê-lo, tenho a sensação de voltar à adolescência, onde era bem mais crescido do que sou agora. Ou pelo menos, tinha mais vontade de o ser, devo acrescentar em bem da verdade.
Falava de assuntos maiores quando era mais novo, preocupava-me com o Ser, procurava o perpétuo, quase como se andasse atrás das grandes questões da humanidade. Foi com quinze que li sobre admiráveis mundos novos e porcos triunfantes traduzidos pelo Manuel Alegre. Talvez tenha aprendido entretanto que a vida é o que acontece enquanto fazemos os planos, e agora cito clichés, entretenho-me com os breves detalhes do quotidiano, à procura de beleza que possa ser verdadeiramente minha, a cada instante.
A verdade é que os detalhes belos que o acaso nos oferece no dia a dia não são de todo tão magnificentes e dignos das páginas de livros como as sínteses da vida que faz Garcia Marques, com tanta facilidade e de maneira tão crua, a cada página de cada livro - e julgo ser esta a lição que o Paulo Coelho ainda não aprendeu. Mas parece-me mais humano, mais humilde, menos megalómano e quase demagógico te-los como meus e tende-los, dedicar-lhes tempo, nutri-los a eles do que à razão de ser deste nosso mundo cão.
Encarregou-se a nossa sociedade - e já cá coube mais um chavão - de por trela nos grandes assuntos. Não se fala de história, de sociologia ou de antropologia sem se tirar do bolso um Sartre ou um Mann, ninguém tem opiniões, pelo menos sem uma bengala bem reconhecida. Por outro lado, os meus queridos detalhes resvalam demasiado depressa em conversa superficial de café, mas adiante. Em conversa com um amigo, físico de paixão e profissão, discutíamos se a Natureza se teria apercebido já desta espécie débil que a incomoda há algum tempo, e se tardaria muito a coçar-se e a atira-la into pure oblivion. Ele responde-me que nada disso faz sentido porque a Natureza tenta tudo a toda a hora, e que o surgimento ou extinção do que quer que seja é ditado pelo estado geral do restante envolvente. A toda a hora aparecem e desaparecem, a um nível microscópico, milhões de coisas das quais não damos nem conta - outras, infelizmente damos, como as gripes novas e os vírus resistentes.
Um pouco à semelhança das grandes questões, todas já encaixotadas nas suas devidas jaulas, escapam os detalhes, o imprevisível, o momento que vem e que passa - como a garota lá no Brasil - e que não perdura tempo suficiente para que ninguém o abocanhe. Ou escreva sobre ele.

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