Nick Drake diz nas suas canções "day is done" um milhão de vezes, em várias músicas, com vários sentidos. Mas a mim soa-me sempre ao mesmo, mas a um "mesmo" que eu próprio não sei explicar. Às vezes tenho a sensação que o percebo, mas depois a sensação foge-me, umas vezes mais depressa, outras perdura mais tempo. No fim, esfumaça-se sempre antes que a consiga agarrar, definir-lhe a forma, dar-lhe um nome.
Cada vez que surgem as três palavras, algo se abate dentro de mim, mais que tudo o resto elas fazem sentido. Ora escondidas, passam despercebidas, é apenas um dia que chega ao fim, um dia no meio de tantos, um dia que se finda com um suspiro no sofá e uma chávena de chá na mão, antes de adormecer à beira de um novo dia que começa. A sensação de concretização, mais um dia "feito", risca no calendário, vira para o lado na cama e sorri. Mas logo de seguida soa a morte. Morte absoluta, perpétua, imperscrutável, done.
Cruza-me o pensamento o discurso no panfleto de capa do disco das elegias do Brad Mehldau, sobre - e para resumir, embora de uma maneira talvez demasiado larga - a morte, sobre estar vivo, e sobre viver com os olhos postos na morte, para assim a celebrar cada momento em contemplação. E então atinge-me a pequenez e a magnificência da frase: day is done. O viver mesquinho do dia a dia, o medir da vida em pequenos palmos às vezes demasiado iguais uns aos outros, incessantes, todos em fila, todos alinhados com o Sol no céu, que nasce todos os dias no mesmo horizonte e se põe todas as tarde no lado oposto. Day is done, não há voltar atrás, encolher de ombros, não há fuga. Algum dia será o último, e também esse será done.
Não era nada disto que eu queria dizer, mas o sentimento foi-se. Estou a falar de nada.
"when the night is cold
some get by and some get old
when the day is done."
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