terça-feira, 29 de janeiro de 2013

É-me importante a harmonia, a construção. Como os temas se contorcem uns com os outros, como se arquitectam, como uns geram outros, e desses outros, outros variam e florescem. Como o que parece tão desimportante faz toda a diferença, e como o que é declarado na verdade quer dizer outra coisa. Como uma nota só muda o sentido de toda uma frase, de toda uma obra, de toda uma vida. Importam-me as nuances, os timbres, as surpresas escondidas numa súbita mudança de andamento, e a poesia escondida no lirismo sublime de uma frase.

Mas hoje vi um amigo violinista dar uma aula a uma aluna.
Importam-lhe os crescendos na mesma nota, as arcadas, a intensidade do som, o ataque à corda, quanto arco se usa. Porque tudo isto mexe com o vibratto, com o brilho, com a projecção do som num gume afiado que vai ao fundo da sala e volta ainda vivo.
A ele interessa-lhe cada nota, a sua afinação, a sua qualidade, a maneira como essa nota começa, a maneira como essa nota morre, noutra nota ou no silêncio absoluto. Interessa-lhe a frase que sobe ou desce, a terceira posição, a quarta, a quinta e a sexta, os harmónicos agudíssimos, aquela nota quase encavalitada no cavalete que mal deixa espaço a que passe o arco e que, quando bem conseguida, estilhaça os vidros da sala e as almas dos ouvintes. Interessa-lhe o som mais escuro que se consegue com o arco para baixo, interessa-lhe o seu instrumento que só dá um nota de cada vez.

Fui perguntar ao meu amigo trompista. Ele preocupa-se com a afinação, com a textura do som da sua trompa, que deve ser suave como o veludo mas pujante e cheio como uma corneta de guerra. Interessa-lhe a passagem rápida que é tão difícil de conseguir, interessa-lhe uma frase longa bem sustida por um bom pulmão.

Somos todos o mesmo, moldamos a mesma massa, e cada um de nós quer saber de coisas tão diferentes. Não admira que nos sintamos todos sozinhos.

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