sábado, 18 de setembro de 2010

Velhos amigos renovados

Já o conheço há alguns anos, chama-se Ricardo. É meu amigo desde os meus tempos de escola, não da minha turma – eu tive um ensino estranho, sem turmas ou ajuntamentos fixos – e talvez por isso a nossa amizade tenha mais sentido; nunca foi forçada pela convivência laboral. O Ricardo é um rapaz peculiar, nunca foi de falar muito, mas quando abra a boca era muito expressivo, falava por imagens e adjectivava proficientemente.
Apaixonou-se e namorou durante muito tempo, com determinada miúda, mas toda a gente – excepto ele, claro – via que aquilo não seria nada para a vida. Ela não acompanhava a inteligência descomunal dele; o circulo de amigos à volta do Ricardo ainda hoje não sabe se eles eram capazes de manter uma conversa.
Esse namoro acabou, passados anos, já ambos tínhamos acabado o curso. Nas saídas ele começou a aparecer com várias raparigas ao lado, a um ritmo estranho. Lembro-me de ter aparecido uma vez num jantar com uma, no dia seguinte ao almoço com outra, e quando o apanhei na casa de banho do restaurante, lhe ter perguntado como tinha conhecido a namorada, ele me perguntar “qual namorada?!”.
A minha vida entretanto mudou, perdi o contacto com ele, até à semana passada, quando ele me telefona para nos encontrarmos. Apareceu sozinho, num magnifico restaurante indiano onde sugeriu que nos encontrássemos. Estranhei. Perguntei.

“Conheci-a num concerto. Ela quis cumprimentar-me no fim, conhecia-me de vista – e de facto a cara dela não me era estranha, estudou na ***** (lá me explicou quem era) – e começámos a conversar. Acabou por me convidar para jantar, e acabámos às duas da manhã em casa dela. Dois dias depois voltamos a encontrar-nos, na Baixa. Eu sabia que ela lá ia estar, e ela esperou quando me atrasei... foi estranho.”
“Ela deve ser mesmo alguma coisa, para te ter agarrado assim à primeira...”
Ele olhou para mim. “Nunca lhe toquei. Já nos beijámos, mas tinha as malas na mão, nem sequer a abracei.” Eu fiquei pasmo. “Está a ser diferente. Eu não quis assumir nada, ela também ainda não, mas a verdade é que não quero estar com mais ninguém.”

2 comentários:

S* disse...

Hummmm... alguns amores são assim. Não precisam ser concretizados para serem muito reais.

Wolve disse...

ah, mas este deve estar bem real dentro deles, é só uma questão de tempo. Ou então depois passa-lhe, como os outros...