Todas as semanas apanhava o mesmo alfa pendular, à ultima hora da tarde de sexta, no Porto. Até Lisboa media o tempo pelas nuvens, esperando delas o sorriso que não encontrava nas memorias fugidias que revia em revista, na paisagem.
Não que a vida lhe tivesse sido cruel, no sentido mais imediato da palavra. Talvez antes ingrata; dera-lhe o melhor, várias vezes. E depois levara-lhe não só o que tinha dado, mas a esperança também. No lugar, deixou a vida um sentido de fatalidade, de destino: “tiveste já, contenta-te e segue em frente, pois estás em dívida”.
Não contara a vida que uma pessoa sem nada, nada tem a perder.
Rapidamente aceitou trabalho por todo o pais, as réstias de vida social que pudessem estar penduradas como farrapos na fina corda, rapidamente apodreceram. Outras apareceram, mais ténues, mais fugazes, menos profundas. Mais fáceis, mais suportáveis.
Uma qualquer sexta feira chegou, como as outras. O cansaço escorria-lhe no corpo, um arrasto na direcção da cama – agora vazia, fria, amarga, o quente escuro agora arrefecido, a humidade que secou nas paredes mortas.
Pesava-lhe na mão a mochila só: viajava leve, carregava consigo o desprendimento, apenas. Pousou-a no chão, quando chegou à plataforma.
A poucos metros dela, ele fumava, encostado a um poste. Viu-a, apagou o cigarro. O comboio chegava, e cada um caminhou para portas opostas. Ela seguiu para o bar, e pediu um martini. Ardeu-lhe a garganta, vieram-lhe lágrimas aos olhos, pois ela nunca bebia. Pediu outro. Enquanto o álcool lhe puxava as lágrimas, ela ria-se dela própria. Porque é que estava a fazer aquilo? E porque não? Depois desse, ainda a tossir, foi à procura do seu lugar. Ali estava ele, sentado do lado do corredor com o portátil ao colo, no lugar ao lado do dela. Ela aproximou-se e ao perceber que ele escrevia, não resistiu a espreitar discretamente. As linhas cresciam rapidamente diante dos seus olhos: “... como é tão difícil chegar perto das pessoas. O olhar dela, um mundo inteiro por trás daqueles olhos, um mundo à espera de um comboio... e eu agarrado à merda de um cigarro...”
Claro que podia não estar a escrever sobre ela, mas... quem, então? E pensando bem, porque não?
Neste momento ele repara, no reflexo do seu ecrã, na figura parada no meio do corredor, vira-se e dá com ela ali. Apressa-se a fechar o portátil, e ela disfarça com o cabelo, foge ao constrangimento como pode, e avança para o seu lugar, quase por cima dele. É neste preciso momento que a vida que lhe foi ingrata tropeça e sacode o comboio, e a desequilibra do fino limbo em que vive, por entre os farrapos de vida e as linhas de comboio que lhe atravessam o coração. E há uma nuvem que lhe sorri por fim, ao vê-la cair, amparar-se na cabeceira do assento, e ser agarrada pelas mãos dele, que lhe encontraram a cintura.
Olharam-se nos olhos. A meros centímetros, ele sentia-lhe o cheiro a álcool, e detestava. Ela sentia-lhe o cheiro do tabaco na camisa, e detestava também, mas nenhum se afastou. A boca dele estava tão perto do decote dela que ela lhe sentia o arfar quente no peito, e as mãos dele queimavam-lhe a anca, mesmo por cima da roupa.
E porque não?
Momentos depois, encontravam-se na casa de banho apertada, espalhando o álcool e o tabaco pelo corpo um do outro, numa espécie de troça da vida, um descer tão baixo, ao banhar-se nos vícios de que sempre fugiram por convicção, um ceder final, um dobrar de espinha: “está bem assim, já chega?”. Uma vingança da vida que dá e que tira tão cedo demais, que rouba e mata sonhos. E naquele momento foram felizes, foram maiores, foram senhores. O comboio sacudia-os violentamente, ampliava-lhes os movimentos e o prazer, e quando ela finalmente gemeu, estavam a chegar a uma estação.
Abateu-se sobre eles o silencio. Alguns passos, e silencio novamente. Olharam-se, envergonhados, mas convictos a não ceder ao arrependimento, impelidos pela vitória que acabavam de conquistar. Sem trocar palavra, saíram da casa de banho à vez, e terminaram a viagem, lado a lado, por vezes de mãos dadas. Não faziam ideia que na cabeça de ambos se passava o mesmo, nenhum se atrevia a perguntar. Era muito mais fácil explicar tudo como uma aventura meramente física, e isso servia de explicação para o outro; mas não para si mesmos. No fundo a vitória escoava-se com o tempo: o que eles procuravam, na verdade, não tinham encontrado, e a desventura ganhava.
Por isso, nunca trocaram telefones, mas a cada sexta feira encontravam-se na Campanhã, e caminhavam para perto da casa de banho. Até que um deles tivesse coragem de falar, ou deixasse de aparecer.
1 comentário:
Não posso deixar de reforçar... o texto é lindo. Identifiquei-me. É bom ter quem nos compreenda ao lado. Nem que seja simplesmente durante uma viagem no alfa.
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