terça-feira, 9 de março de 2010

Rewind

Retornar à minha velha casa não foi fácil. Fui convidado para um concerto na casa de quem me ensinou; um pequeno recital, nada demais. Decidi levar o repertório que tenho em mãos desde há cinco ou seis meses. Seguro. Rodado em várias ocasiões. Sentia-me confiante. Por um lado foi saboroso, rever caras, paredes, janelas onde me debrucei, lombadas de livros que li milhões de vezes durante a infância, pelas infinitas estantes dos corredores. Foi bom também rever aquele piano, em particular. A minha professora tem – agora o reconheço – um óptimo gosto.
Sentei-me no banco, os nervos a apoderar-se do meu peito. A plateia inteira conhecia-me, desde que pela primeira vez escrevera uma colcheia: não sabia o que era nem o porque das hastes, mas todas as partituras que tinha visto na televisão tinham notas com rabinhos; é porque devia ser assim. Todos ansiavam pela primeira nota minha. A primeira errada. Como num pesadelo em que monstros indescritíveis nos assombram de todos os lados, prometendo torturas com os seus esgares, assim estava aquela sala. Tinham-me rodeado.
Correu razoavelmente, nada de extraordinário embora não tenha sido um desastre. A interpretação teve a sua quota parte de pregos, e no fim a plateia parecia saciada. Todos me elogiaram, como é da praxe, enquanto eu agradecia em todas as direcções e apertava mãos e retribuía beijinhos. Depois do recital havia um lanchinho, e aos poucos todos foram saindo para a cozinha, acabando por me deixar na sala com a professora. Confessou que tinha gostado de me ouvir, que tinha mudado muito desde a ultima vez que tocara para ela – já la vão para cima de 10 anos. Disse que me parecia com o Michelangeli, não pela maneira de tocar – era bom demais... – mas pelas expressões e pela maneira como me debruço sobre as mãos nos pianíssimos. Sorri. Pareceu-me a única pessoa sincera. A única que não me deu os parabéns.

3 comentários:

Tudo de mim. Ou quase. disse...

Por outro lado, há elogios que são verdadeiras ofensas. Não sou de grandes elogios. Dar ou receber. Quando surgem como água na torneira deixam de fazer sentido.*

Wolve disse...

verdade.

Random Blogger disse...

:) os verdadeiros elogios são as críticas duras e sinceras, que apesar de tudo nos fazem sorrir :)

gostei do texto. fez-me lembrar coisas minhas, mas troca o piano pela guitarra :)