Retornar à minha velha casa não foi fácil. Fui convidado para um concerto na casa de quem me ensinou; um pequeno recital, nada demais. Decidi levar o repertório que tenho em mãos desde há cinco ou seis meses. Seguro. Rodado em várias ocasiões. Sentia-me confiante. Por um lado foi saboroso, rever caras, paredes, janelas onde me debrucei, lombadas de livros que li milhões de vezes durante a infância, pelas infinitas estantes dos corredores. Foi bom também rever aquele piano, em particular. A minha professora tem – agora o reconheço – um óptimo gosto.
Sentei-me no banco, os nervos a apoderar-se do meu peito. A plateia inteira conhecia-me, desde que pela primeira vez escrevera uma colcheia: não sabia o que era nem o porque das hastes, mas todas as partituras que tinha visto na televisão tinham notas com rabinhos; é porque devia ser assim. Todos ansiavam pela primeira nota minha. A primeira errada. Como num pesadelo em que monstros indescritíveis nos assombram de todos os lados, prometendo torturas com os seus esgares, assim estava aquela sala. Tinham-me rodeado.
Correu razoavelmente, nada de extraordinário embora não tenha sido um desastre. A interpretação teve a sua quota parte de pregos, e no fim a plateia parecia saciada. Todos me elogiaram, como é da praxe, enquanto eu agradecia em todas as direcções e apertava mãos e retribuía beijinhos. Depois do recital havia um lanchinho, e aos poucos todos foram saindo para a cozinha, acabando por me deixar na sala com a professora. Confessou que tinha gostado de me ouvir, que tinha mudado muito desde a ultima vez que tocara para ela – já la vão para cima de 10 anos. Disse que me parecia com o Michelangeli, não pela maneira de tocar – era bom demais... – mas pelas expressões e pela maneira como me debruço sobre as mãos nos pianíssimos. Sorri. Pareceu-me a única pessoa sincera. A única que não me deu os parabéns.
3 comentários:
Por outro lado, há elogios que são verdadeiras ofensas. Não sou de grandes elogios. Dar ou receber. Quando surgem como água na torneira deixam de fazer sentido.*
verdade.
:) os verdadeiros elogios são as críticas duras e sinceras, que apesar de tudo nos fazem sorrir :)
gostei do texto. fez-me lembrar coisas minhas, mas troca o piano pela guitarra :)
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