Dizia uma amiga minha que "L'amant" o filme materializado a partir da obra de Marguerite Duras [nos] atinge o âmago com uma violência silenciosa”. Eu quis responder-lhe, mas não fui capaz.
Mais do que atingir-nos, aquela realidade quase impalpável reduz-nos, esmaga-nos, a todos nós que estamos habituados á comodidade de certos valores. Amor. Ódio. Respeito. Toda a hierarquia que esses valores representam, que ali nos é servida ao contrario.
Um homem rico que pode ter tudo, a tal ponto que a riqueza o torna fraco, e que apesar de se encontrar naquele amor, se fortalecer dele, de nada lhe serve, e acaba consumido na vontade do pai, num casamento do qual nunca se chega sequer a ver a noiva, e no ópio. No ópio a que de resto já o pai se tinha entregue.
Uma rapariga que ama verdadeiramente, como nunca mais amará, e que o sabe desde o primeiro olhar, mas que sabe que tudo vai acabar e que por isso se engana, a ela e a ele, de cada vez que encontram naquele quarto de solteiro com gente a passar do lado de fora como se noutra realidade, e que se prostitui apesar de amar, e com isso o prostitui a ele.
Tudo isto apesar de tudo estar já inevitavelmente entregue, os corpos, as vontades, as reputações – manchadas, numa sociedade chinesa que não esquece nem perdoa – nada ficou por oferecer, nem a dignidade. Ainda assim de nada serve, aquelas ruas imundas não se detêm por aquele amor, e ela continua a vender o corpo ao homem que ama; e isto destrói, por dentro.
Magoa particularmente a cena em que era suposto encontrarem-se uma ultima vez, naquele quarto onde tanta vez se amaram – algumas tão sofregamente que não conseguiam nem chegar à cama, ficavam-se pelo chão onde se arrastavam de prazer – depois de ele se casar, e ele não aparece. Não havia nele forças para mais, o seu corpo não conseguia desejar a quem não o ama.
Sinceramente, todo “O amante” me lembra uma passagem do 1984, de Orwell, esticada numa película de 120 minutos: o momento em que o casal de personagens principais se encontra uma ultima vez antes de serem executados, depois de toda a tortura, depois de todos os seus momentos íntimos e todas as frases de amor trocadas terem sido esmiuçadas e conspurcadas, ditas por milhares, ouvidas por milhões, destruídas pelas bocas, olhos e ouvidos de todos, e eles... incapazes de se amar outra vez.
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