segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Incerteza

Todos os dias acordava e a primeira preocupação era certificar-me que ela estava ali. Morgan tornara-se mais que ar, para mim. Perto dela eu era frágil e forte, ao mesmo tempo. Ela domava-me como a um cão, e eu não só era incapaz de o evitar como o desejava. Eu desejava estar a seus pés. “Nunca um lobo desceu tão baixo...” pensava eu para comigo, com ironia. “Mas afinal de contas quem é o demónio aqui?”, e ria-me. Mas depois olhava para ela, e toda a sua força se transfigurava em cuidado e carinho. Por mim. Também ela “descera muito baixo”. Um dia contei-lhe este raciocínio.

- Não percebo a que te referes. Como assim, descer? Não deveria ser ao contrario? – e ria-se, na minha cara.

- Deveria? Perante ti sou fraco, sou escravo. A minha vontade perde valor perante ti, eu próprio perco valor perante mim próprio, quando entras na equação. Como é que isso me pode fazer sentir forte?

- Como é que pode fazer-te sentir fraco? – o olhar dela tornara-se céptico. – Não compreendo. Deves saber que em mim se processa o mesmo. Somos os dois pilares da mesma ponte; todo esse raciocínio cai na redundância se eu te responder com os mesmos argumentos, não é verdade?

E era. Se para mim, ela era mais importante, e eu o fosse para ela, estávamos a tomar conta um do outro. No entanto, no momento em que a cadeia se rompesse, ambos desabaríamos. Primeiro um depois o outro. Incomodava-me particularmente a aplicação do conjuntivo “fosse”. Morgan era ilegível, fazia parte do seu carácter. Mesmo nas questões de amor.

Mas então eu olhei para ela e percebi. A mesma determinação com que os seus olhos me negavam a certeza impelia a verdade nas suas palavras. E então percebi a força vulcânica com que me amava, imparável e esmagadora, que transparecia dos seus olhos ternos. A paciência com que corre o rio, na força da água na catarata.

Ainda assim só consegui pensar, “Todos os dias és a minha estrela Polar, o meu fogo. E tu sabe-lo. Porque raio não o dizes?...”

Sem comentários: