É uma grande moradia. Tem uma frente murada, com reboco de conchas como se fazia nos anos oitenta. Descaído para a esquerda na fachada, o majestoso portão em arco, a anunciar os assombros escondidos debaixo dos pinheiros. A casa surge então à vista uns metros mais atrás, timidamente escondida por entre arbustos e jovens palmeiras, tal e qual eu imagino a minha vizinha, escondida por entre véus no seu dossel, sorrindo, na plenitude da inocência fabricada.
A inicio pensei que fosse apenas uma mulher como qualquer outra, com a sua vida semanal, e que às sextas à noite convidasse os amigos para uma festa na piscina. Os carros em frente ao muro de conchas eram típicos de gente jovem: carros pequenos, pejados de autocolantes de marcas de pranchas e de ténis, os típicos varões sobre os tejadilhos, riscados de tanto prender as bicicletas. Nessas noites ouviam-se as gargalhadas às horas da madrugada e os saltos para dentro de agua. Cheirava a churrasco, viam-se as luzes. A inicio.
Mas naquele dia, chegou um outro carro. Outro tipo de carro. Americano, grande, negro. Quem saiu do banco de trás teve mordomia de quem saiu do banco da frente. E ela, a minha vizinha, resplandecente, no jardim, poucos passos à frente da porta da casa. O homem saiu, e enquanto ela o acompanhava para dentro, de braço dado, o carro desapareceu.
Depois deste, outros. Chegam, e ela acompanha-os para dentro, muito encostada ao braço que lhe dão, de andar sempre gingado, a fazer sobressair a anca firme. Nessas noites só uma janela tem luz por detrás da portada, naquela casa.
Depois, pela manhã, ela passeia no jardim. No inverno de vestido florido, no verão de biquini. Estende-se ao sol na rede pendurada entre o pinheiro e o carvalho, e baixa as alças do vestido, no inverno, ou do soutien, no verão, e ali fica a queimar os ombros. Os ombros que insinuará depois, esperando que lhe tirem as alças outra vez. Mas durante o dia, ela passeia só, descalça, sempre linda e esbelta do alto do seu porte magnificente, mais quebrado a cada noite que passa, nos seus vestidos compridos que roçam o relvado, tal como ela mais tarde se roçará. Sem paixão. Sem amor.
3 comentários:
Essa vizinha é uma grande tola, vejo. Como se diz por aqui :)
Mas gostei do texto caro lobo .
Beijinhos
Imagino-o a seguir o quotidiano da sua vizinha de minoculo!
Kidding!
:D
Bom texto
@ patricia: por amor de Deus não me trates por você! =D
e não ando a cuscar nada. Está tudo bem à vista.
@ broken: tola? essa não sabia, mas dá muito jeito para privates... também tem quatro letras!
Beijinhos às duas
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