O lobo deu uma festa. Que é como quem diz, para quebrar a monotonia de umas férias decidiu organizar um jantar-borga, só mesmo para verem quem é que manda aqui.
Foi ali nas docas, num barzinho muito intimista, muito pequenino, que serve umas refeições ligeiras, óptimas para quem já jantou mas ainda tem mais um jantar de negócios pela frente, ou para quem só quer a desculpa de um prato para estar num sitio engraçado.
Nenhum dos convivas é de encher o bandulho, e por isso ali foi. Até porque os petiscos são saborosos, e fica sempre bem quando o anfitrião recomenda esta ou aquela iguaria - que aquela cozinha já eu conheço bem.
Ora chegaram todos, passava já da hora uns bons dez minutos. Nada de extraordinário, sextas são sempre chatas para quem conduz, e os dez minutos são mais uma formalidade social: enquanto não chegam todos, os que estão bebem um copo. Quinze minutos e não tinham chegado todos, faltava a M. e o J.
Alguém tentou ligar, nenhum atendia. Os sorrisos traquinas multiplicavam-se à volta dos telefones: todos sabiam o quão ardente aquele amor estava a ser, nenhum dos dois escondia ou sequer se refreava de o demonstrar publicamente, e as teorias do atraso proliferavam como costumam as conspirações nos filmes de gangsters. Encolhendo os ombros perante a inadiabilidade de que por vezes se reveste o amor, os convivas decidiram esperar já sentados.
À mesa, de roda das entradas, a conversa acabou por tomar outros rumos. Como gente delicada que eram, todos decidiram que seria muito fácil escrutinar ali a vida do casal amante, mas que não iriam por aí. Falou-se de automóveis antigos, concertos e vida artística, roçou-se brevemente a politica mas logo se encaminhou a conversa para a frente ribeirinha, mais do que para quem a estava a reformar. Íamos já nas cenas cómicas da vida profissional de um de nós, quando entram o J. e a M. Aproximaram-se da mesa, de sorriso posto, pedem desculpa pelo atrazo e dirigem-se aos lugares.
Era impossível não reparar. Ela, na maneira nervosa como as mãos alisavam a bainha do vestido, imaculado a quem vê, porém amarrotado e enrodilhado no consciente dela. Ele, na maneira como olhava para todos, tentando perceber se alguém sabia. Logo depois, na maneira como se olhavam. Ele com um sorriso imparável, espelho dos olhos arregalados dela.
Claro que toda a gente sabia. Bastava juntar o atraso, e olhando-lhes a pele, o lindo tom que os dois traziam.
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