quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Momentos

Chego a casa depois do trabalho. São onze e meia, amanha tenho que me levantar -- outra vez -- às seis. Tirei cinco cartas do correio, quatro são contas que atiro sem pensar para cima da mesa do hall.

Ligo o pc, e rezo para que o router me de um bocadinho de internet para ler blogs. Ele nem sempre para aí está virado... Hoje acedeu ao meu desejo. Cliquei no primeiro link que me apareceu no blogroll e a partir daí fui saltando de uns para outros, como sempre faço.

E enquanto clico e esfrego o trackpad penso na vida que acabou por se erguer à minha volta. Ainda ontem era um puto, estudava, estudava coisas que não tinham nada que ver com o meu programa de piano so lo gozo de as tocar, pensar na namorada e viver pendurado no telefone. E agora...

Sinto-me um falcão. Pousado muito acima da floresta, no topo da ravina, olhando para as copas das arvores. Observando as outras aves, la em baixo, azafamadas. Lendo os seus blogues.
Elas estão felizes. Uma foi convidada para tocar num concerto. Sente que está a abrir as asas, a experimntar o salto. Outra comenta, está noutra floresta, já voou, conta com o vento sabe bem debaixo do peito.

Eu olho para o lado. Colada a mim tenho uma asa velha, desgastada. Voar é a minha vida há mais de um ano, ja. E ainda não saí daqui. Não que seja obrigatório sair, faze-lo realmente. Mas na verdade não penso nisso. Não penso em como seria, não imagino a viagem e a chegada. A minha cabeça pura e simplesmente não se ocupa com esse assunto.

De repente algo passa a milimetros de mim. Uma aguia razando o penhasco em direcção ao céu; lá em cima, contra o branco das nuvens arqueia as costas e inclina-se. Dobra as asas e encolhe a metade exterior, o seu voo aumenta exponencialmente de velocidade. Aponta para baixo como um meteoro e cai. Desaparece la em baixo.

"ja viste? aquilo sim, é saber viver." -- dizes tu.
"... um dia também hei de ir."

Voltas para dentro da escarpa. Eu fico, a olhar para o ceu e para as arvores. O mundo inteiro à minha frente. Sentindo a brisa. Continuando sem pensar em partir.

Então as aves la em baixo olham para mim. Reparam que ainda aqui estou, que sempre aqui estive. Que faço parte da "mobília". Que sou fraco, pouco ambicioso, que vou acabar por me deixar estar.


Um dia ainda saio daqui para nunca mais voltar. Levanto voo, bem acima das vossas cabeças, e so paro perto do Sol.
Noticias minhas, so por satelite.

1 comentário:

Medusa disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.