sábado, 29 de agosto de 2015

Era rapaz de pouco sair. Fazia-o pelas saudades dos amigos, e deixava-se arrastar para os sítios com eles, mas não se sentia compelido a isso. Bebia moderadamente nos cafés e nos bares, socialmente, o pouco que bebia em casa, era por ritual. 
Um dia cruzaram-se com um outro grupo, e os amigos apanharam conversa com eles. No meio desse grupo havia três raparigas, e ao longo da noite, elas foram ficando enquanto o resto do grupo se ia esvaindo, lentamente. Outros amigos, de uns e de outros, chegavam e partiam. Ele continuava ali; observava muito mais do que participava. Não o podia negar, sentia-se alienado naquelas situações. Não por sociopatia, apenas por desinteresse. Simplesmente, não lhes via propósito. 
A certa altura, dirigem-lhe a palavra, ele responde, uma das raparigas intromete-se, e acende-se uma certa picardia. Uma delas sugere que talvez ele fosse tímido com as raparigas. 
Nesse exacto instante desperta nele um sarcasmo incontrolável, o lado sardónico que a noite despertava nele, que os outros despertavam nele. 
“Acho que tens razão. Nunca fui tipo para engates, e sempre que alguma me dirige a palavra como tu fizeste, dispara-me o coração e suo das mãos em bica. As namoradas que tive (e foram muito poucas) acho que foi por pena que estiveram comigo, e tive quase que lhes implorar, que nem um miserável, que me dessem alguma atenção. Mas que é que eu estou a dizer? Eu sou um miserável. E realmente nenhuma ficou muito tempo. Acho que essa parte teve que ver com eu ser mau na cama. Comigo, lá é tudo muito pequenino, muito tímido, muito com medo de agitar as águas. A maioria — aliás — todas!, se levantaram e foram embora a meio, ofendidas com a minha mediocridade, a praguejar. Todas menos uma, mas essa acho que adormeceu, nem sei bem.” 
Ficaram todos de olhos postos nele, abismados. Falara mais, de rajada naquele momento, do que no resto da noite. A que lhe falara, riu-se, nervosa, e abriu a boca para falar. Mas ele cravou os olhos nos dela, fez por se aproximar, num gesto quase imperceptível, uns meros milímetros, e disse-lhe devagar, “se cá cais, não queres outra coisa”. 
Como se nada tivesse acontecido, todos sacudiram o torpor do constrangimento e continuaram a conversa apressadamente, esforçando-se por ultrapassar aquele momento. Todos menos ela, que continuava presa ao olhar dele, que a não deixara ainda fugir. 

Nessa noite, gemeu, gritou, revolteou-se e roeu a fronha da almofada como nunca antes na vida havia feito, nem nunca mais haveria de o fazer.

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