Um mar de penedos.
Sobre eles há um voo, seco quando visto de cima. Cortante sobre penedos afiados, de tão rápido que é.
A imagem choca, perante os olhos, pelo contraste dum voo fluido, displicente, mas mais afiado que as arestas, por baixo.
Demasiado perto, uma das asas separa-se do pássaro e esvoaça no seu cair, rodopiante e alegre. O revoltear daquele pedaço parece uma gargalhada para os olhos. O pássaro não pia, a cena mantém-se silenciosa, e é uma pena. O silencio doi mais que o piar eventual, do que nunca chega a ser. E o animal cai, perdido, transido, sem controle. Um peso morto à beira de morrer.
A queda demora anos a acabar. Um mar de penedos sem fundo. Quem vê de cima tem mais que tempo para virar costas e não ver o fim, mas não o faz. Há uma pulsão mórbida em assistir, em confirmar o fim, ver com os próprios olhos, em ver.
Não há vontade de o salvar, nem um breve sobressalto na respiração, um franzir de olhos, um esgar. um gesto. Não há nada. E a tanta distância, quando o pássaro encontra o seu fim na parede escura, dura e fria, não há o mais breve baque, há apenas o nada imóvel, e depois de piscar os olhos é até difícil apontar onde ficou o corpo.
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