sábado, 6 de abril de 2013

Com uma raiva emancipada. 


Avança a noite e eu acordo. Adormece o mundo lá fora, mas eu desperto, apodera-se de mim a insónia - que não é uma insónia. Estar acordado não é uma insónia se for de dia, porque razão tem que o ser de noite?
Mas o mundo adormece por inteiro. Adormece primeiro a luz, com ela os pássaros. Depois os carros. Depois as luzes nas janelas, e com elas as pessoas. Adormece o Facebook, o telefone, a própria internet parece bocejar. Mas acordo eu, e é para este mundo deserto que acorda o Eu, um Eu relegado, renegado, uma quase terceira pessoa que desperta no vazio, no vácuo, na inércia.
Eu, o meu Eu mais puro, o intrínseco Eu, o Eu profundo e cru, negro, cheio e denso, o aveludado Eu vil.
Percorre o Eu estradas dormentes, do lado de fora da janela, caminhando pelo asfalto, cospe para o vazio e cumprimenta os candeeiros, como ele, bem despertos, mas indivíduos de poucas palavras.
Antes do dia nascer, cansa-se e vai-se. Desvanece-se numa névoa e desaparece, vira costas e vai-se embora sem dizer adeus. Fico só eu, a vê-lo dobrar a curva. Fica durante um pouco a dúvida se lá esteve de facto, mas também essa se despede e se some.

Então fica um ninguém. Um eu perdido e sem existência, um eu à espera doutro Eu, ou de alguém, ou de alguma coisa, que a estrada se encaracole sobre ele - que não está ali, nem em lado nenhum - que morra um cão com um ultimo ganido pungente, que acabe o mundo, ou à espera da sua própria voz que dorme também, porque se cansou também ela de esperar pela voz de outrem.
A espera é tanta no silêncio e a quietude tão palpável que o ar se torna sólido como a terra, à volta das raízes duma arvore que morreu em pé. Evapora-se a melancolia e fica só a apatia de não ser, de não nada. Uma espécie de morte com insónias, que não fecha os olhos, mas que não está mais ali.


E então o céu clareia em tons de azul mais leves, e vêm-se as primeiras nuvens esbatidas. Cantam os primeiros pássaros. Olho, e os candeeiros também já não estão lá. Passa por mim um carro, e por momentos julgo que vai atropelar o Eu que ainda está no meio da faixa, mas esfrego os olhos e tudo se esvai em três notas perdidas dum resto de melodia e fiapos, saída de uma porta aberta. Acredito por breves instantes que ali se acaba. Mas na verdade, é uma insónia em cima de outra. Em cima de outra. Em cima de outra.

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