quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

The meeting

A noite era desolada, fria como a morte. Budd e Logan estavam enroscados um no outro, dentro do saco cama - mas sem paneleirices, vá. Por segurança, penduraram a tenda numa arvore e estavam suspensos naquela espécie de balão, deitados numa rede. 
O amanhecer encontrou-os ainda acordados. O frio e a sensação de fragilidade manteve-os ambos alerta, toda a noite. Budd não sabia ao que iam, mas o que quer que fosse, não queria ser apanhado a passar pelas brasas. Logan também não, mas isso deixava-o nervoso, e por isso mesmo dormitou levemente, apenas, e com um braço de fora, a coronha da espingarda na palma da mão. Quando a luz iluminou a tela da tenda e os primeiros sons matinais se fizeram ouvir, abriram o zipper e saltaram para o chão, aterrando direitinhos no chão gelado, que os engoliu até à cintura. Exactamente o que “banho gelado” significa no Canadá... 
Depois de violento atentado contra a mochila das provisões puseram-se a caminho. Cruzaram um rio por volta da hora de almoço, e ao lanche chegaram ao destino: a câmara que fotografou meses antes um clarão estranho na noite. 
A câmara em questão tinha sido plantada uns anos antes, numa viagem de amigos, ainda Logan era um explorador de algibeira. Tinham montado aquelas geringonças em casa, com uma máquina fotográfica, um pequeno painel solar, um sensor de movimento e um telefone de satélite, não necessariamente inteiro... Obviamente, o tempo tratou de envelhecer a câmara com requintada delicadeza: as peças estavam queimadas do frio, enegrecidas da humidade, conservadas em teias. Logan admirou-se que todo aquele aparato tivesse sido capaz de uma ultima fotografia, antes de se desintegrar dentro do caixote de madeira. 
Assentaram bagagens junto a um grande calhau, a uns metros dali. Estavam no sítio certo, agora teriam de procurar à velha moda. 
Claro que uma estadia num hotel natural, implicava a adopção da cozinha tradicional. Antes que anoitecesse o nariz de Budd e a espingarda de Logan foram comprar o jantar. Uma hora mais tarde estava uma lebre num espeto, sobre belas brasas dançantes, e quatro olhos espetados nela. Bem, tão espetados nela que não se aperceberam que já eram seis. 
Um lobo branco como a neve, tão branco que se confundia com ela, olhava-os a curta distancia, imóvel. - Budd... quieto. - Logan estava de cócoras de um lado da fogueira, e o seu fiel estava do outro. Pelo canto do olho avaliou a distancia até à sua espingarda e percebeu que dificilmente lá chegaria com a antecedência desejada. O lobo sentou-se, calmamente. E calmamente uivou. O ambiente tornou-se demasiado tenso. 
Budd não resistiu e lançou-se sobre ele, apesar da desproporção ser clara. Talvez assim Logan chegasse á espingarda antes que chegasse o resto da alcateia. Budd correu e lançou o seu peso inteiro sobre o adversário, que retesou as patas de trás para o receber. Ao colidirem, rebolaram na neve e um no outro. Primeiro ecoaram os rugidos, crus e violentos, e depois latidos. Mas no fim cortou o ar um ganido intenso e de dor. Budd estava a perder. 
- BUDD, TIMBEEEEER!!! - Budd sacudiu o lobo e atirou-se para o lado, desengonçado, tão depressa quanto pôde. Ia chover chumbo grosso. 
A explosão da carga ribombou, tremenda. Logan carregava cartuchos “personalizados”, com condimentos extra. Animal nenhum resistia àquilo, estava preparado para ursos. 
Mas o lobo não tombou. Logan tinha a certeza absoluta que lhe tinha acertado, mas mesmo assim o seu dedo saltou instintivamente para o segundo gatilho e premiu-o firmemente. A espingarda saltou, furiosa e abriu-lhe um lenho no queixo. Logan não vacilou e abraçou-a ainda mais, aconchegando o olhar à mira. Ainda tinha mais um. 
Mas ele tinha acertado à primeira. E à segunda também. Agora tinha a atenção do animal só para si, e este encarou-o de frente. Rosnava-lhe, com uma fileira de dentes anormalmente rasgada. Logan não tinha medo; avançou de espingarda em punho três passos largos e soltou-lhe em cima a terceira carga da sua espingarda de três canos, à queima roupa, apontada ao focinho. 
Era para matar, sem pejo nem vergonha. 
A carga ácida não tinha como falhar. Acertou em cheio no focinho do lobo, mas Logan não queria acreditar. A força do impacto torceu o pescoço ao bicho, e Logan era capaz de jurar que vira faíscas. Mas o animal continuava ali. 
- Essa coisa tem mais para dar, ou ficaste de mãos vazias, humano? 
Como um barril de pólvora a que chega o fogo, Wolve, o demónio, explodiu numa imensa labareda de chamas rubras, no meio das quais se vislumbravam apenas os seus olhos negros e a sua fileira de dentes.

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