segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Touch down


Logan aterrou num dia chuvoso, a norte de Manitoba. A pista, ladeada de tristes avionetas tão decrépitas como aquela em que voara de Minneapolis até ali, lembrava um passadiço para o fim do mundo, uma ponte alcatroada entre a civilização e o nada. O contacto com o chão foi bruto, o aparelho grunhiu, desconchavado, e o ar encheu-se de uma poeira que era visível quando se atravessava à frente da luz que entrava pelas janelas. Estava a fazer-se noite.
Logan saiu mal o avião parou. Não esperou que lhe abrissem a porta, ele sabia como se fazia. Rodou a alavanca, deu um breve pontapé no fundo da porta para partir o selo de humidade que a colara nos engonços, e desenrolou a escada. Agarrou nos dois sacos que trazia e atirou-os porta fora, para a chuva, sem se importar. De seguida, ajudado por um estivador descarregou a caixa que embarcara com ele, e que lhe custara o relógio para a fazer embarcar.
Saiu do aeródromo e cortou à esquerda, virando na primeira esquina que encontrou. Desceu a carga do carrinho e encostou-a à parede.
“Cá vai”, e com um valente coice num dos cantos fez desabar a caixa.
- Finalmente! - gritou Budd. - Logan, nunca pensei dizer isto na vida, mas caramba!, é bom ver-te! E já agora respirar, também.
- Temos de arranjar um par de rodas. Mexe-te.
Voltaram para a frente do aeródromo. Nesse momento vinha a sair o piloto que os voara.
- Hey! Ho! - O homem parou, perplexo, sem entender como aquele passageiro tinha encontrado um cão tão depressa. - Where can i find a cab, a rental...?
- A car? You’ll be lucky to find a road!
E era verdade. O próprio alcatrão que dava até à porta do aeródromo desaparecia na terra batida uns metros mais à frente.
- Well then, thank you. Oh, and by the way, thanks for the flight, we enjoyed it pretty much!
Se o piloto ficou confuso com o uso do plural, Budd perdeu-se com a frase em geral. Mal o piloto virou costas, o cão estacou.
- Ai gostámos?! Isso é porque não vieste tu fechado na caixa bafienta!
- Bem, agora já gostamos mais ainda. - respondeu Logan, olhando para as horas no relógio que devolvera a si próprio.

A região era triste, nebulosa, fria e húmida.  Logan e Budd levaram tres horas a chegar à terriola mais próxima do aeródromo, e ao fim de uma e meia maldiziam com todos os dentes a ideia de terem viajado clandestinos. Nesse lugarejo, onde chegaram já a noite ía escura, tiveram que montar a tenda, porque na estalagem ninguém lhes abriu a porta. Logo pela manhã Logan encontrou uma espécie de oficina, e comprou uma pick-up por 300 dolares americanos, mas que nem a peso valeria tanto. Nela viajaram durante dois dias, aos bochechos, até à fronteira de Nunavut, onde ela se desintegrou finalmente, depois de ter deixado uma peça em cada cruzamento por onde passaram. “Ao menos não nos perdemos, para voltar para trás seguimos as migalhas” dizia Logan, metendo mais uma mudança ao pontapé.
Venderam-na por 70 dolares e um maço de cigarros, num ferro-velho.

- Bom, é aqui que começa a aventura, meu velho companheiro. - disse Logan, na manha seguinte. - Já sabes o que isso quer dizer.
- Shots.
- Yep.
- Quantas?
- Quatro. - Budd sentou-se em frente à cama, e Logan começou a preparar as seringas. - Mas desta vez há mais uma coisa, companheiro. Se queres mesmo ir comigo, há uma condição.
- Qual.
- Vais usar isto. - Logan meteu a mão no saco e tirou uma coleira farpada, enorme, de espinhos entrançados.
- Logan, eu detesto coleiras. Não vou levar nada disso, ti tens a espingarda. Não preciso mais protecção.
- Ou isto, ou um pacote com selo com a morada da Rosemary.

Logan tinha exagerado daquela vez: mandou fazer a coleira em tungsténio, a partir de uma cambota de um tractor derretida, e a encomenda pedia expressamente “espigões laminados”. Ligaram da metalúrgica duas vezes para confirmar o pedido, e uma terceira para perguntar ser era para acorrentar um crocodilo.
Na verdade, era para um demónio.

Partiram cedo, em direcção a noroeste, num comboio madeireiro, e desembarcaram no coração da floresta, com os lenhadores. Estes avisaram-nos que partiriam antes do sol se por, e que ficar depois da escuridão era insano. Logan não fez caso, e quando acrescentaram que era provável que não regressassem mais aquela área, Logan assegurou-lhes que já não contava com isso quando embarcara.

Foi assim que aqueles dois traçaram rota, à procura daquele que chamavam na brincadeira de Carcaroth, o mítico lobo devorador do Silmaril e da mão de Beren Camlost.



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