quarta-feira, 29 de junho de 2011

La Lugubre Gondola

Reza a história que Liszt sempre foi mulherengo. Talvez de maneira injusta: as senhoras digladiavam-se que nem macacas por um dedo da sua luva, guardavam as suas beatas, tentavam arrancar-lhe cabelo, mas quanto à sua reciprocidade... não haverá registo. Da sua vinda a Portugal ficou o fogo de artificio que emanava das pontas dos seus dedos, curiosamente sobre um piano francês que não valia um chavo – já na altura não valia, e talvez por isso Liszt o tenha deixado cá, vendido a D. Maria II... para os que o que o quiserem ver de perto, está no Museu da Música, no metro do Alto dos Moinhos, até se mudar para Évora, penso que no final deste ano.
Continuando, gravuras da época mostram um Liszt irado, de furiosas mãos desfocadas pelo movimento frenético, o seu cabelo grisalho esvoaçando ao estilo de Beethoven e Einstein, enquanto o público se divide entre as expressões de espanto, os cochichos e os desmaios – no caso das senhoras (mesmo as casadas). Em mil oitocentos e carquejas, Heine usou o termo “Lisztomania”...
Entre nós, pianistas – sim, porque os outros instrumentos têm Liszt como um exibicionista, e refreiam-se de o tocar excepto em orquestra, a acompanhar um piano – há um certo respeito pela figura, por um lado pelo sincero respetinho que temos às obras, nenhuma demasiado fácil de pegar, mas em segundo porque Liszt em certa altura da vida se terá apaixonado por uma senhora casada, a princesa de Wittgenstein, que apesar dos esforços de ambos nunca conseguiu o aval do Vaticano para o divorcio, o que levou a que Franz, destroçado, acabasse os seus dias solitário. Para mais, na mesma altura morrem dois dos seus três filhos, restou apenas Cosine, casada com o malvado Wagner. Liszt entrega-se à religião, e acaba os seus dias como abade Franciscano.
Pois bem, há na biografia de Liszt umas quantas discrepâncias, e eu que não sou excelso na matéria não vou prolongar-me sob receio de me espalhar ao comprido, e assim limito-me ao meu saber pianistico, prático.
Liszt tem de facto uma fase exibicionista, com as reduções de opera para piano solo, com os estudos que ele próprio apelidou “de execução transcendental”, rapsódias húngaras, etc. A “Valsa Mephisto”, por exemplo, conta a história de um ente mágico em viagem, que encontra uma lavadeira numa estalagem com quem começa a dançar, e acaba no final da noite atrás duma árvore com ela, em explosões harmónicas e harpejos. Não me perguntem o que são explosões harmónicas e harpejos atrás duma árvore, quando forem mais crescidos percebem.
Ora, como se passa disto para um amor platónico, que o conduz a abade até ao final da vida?
Há outra peça, a que ninguém dá importância, já do final. Final da vida dele, da época romântica, do século XIX, do tonalismo. “La Lúgubre Gôndola”. Diz Fay, a aluna de Liszt, que o seu querido mestre tinha um peculiar hábito de estudo: as mãos trabalhavam em separado, uma no teclado, enquanto a outra segurava um livro. Poesia, sempre poesia. Em Liszt, o lirismo é, pois, extenuante.
A vida dele foi intrincada. De maior virtuoso do seu século a abade. De galã rodeado de mulheres à solidão, enojado pelos filhos.

Imagino-o, passando num passadiço, quando se depara subitamente com um pequeno barquinho, frágil, a passar-lhe por baixo, com duas ou três pessoas em cima. E pergunto-me, o que terá este homem visto numa gôndola veneziana, balouçando levemente na água, inclinando-se ora para a folia inconstante, ora para o amor profundo e para a tristeza que lhe traçou o final da vida, para ter escrito sobre ela uma pérola tão bela, tão sincera. Tão única.


2 comentários:

Lady L disse...

Não se trata de mudança de cidade. Essa aconteceu o ano passado.
Tu vais mudar para onde lobo?

Lady L disse...

Sempre podes tentar o email do blogue. ;)