segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O meu tio morreu. Domingo sim domingo não, arrasta o seu cadáver e vem cá almoçar. Momentos há, coitado, em que ainda parece vivo, preso no limiar da vida como os homens-estátua na Baixa, imóvel e sereno. Mas logo o seu aspecto amarga, lentamente passa a múmia embalsemada, e depois a defunto.
Vai abrindo a boca, esporadicamente. Fala alto, em curtas rajadas de palavras, ransosas de tão ensaiadas. Fala muito alto e cospe. Fala da terra, da tia, do irmão. Todos mortos.
Fala das leguminosas, ao menos essas vivas...
Quando uma noticia na televisão enuncia a tão badalada crise, o figado revolta-se-lhe no corpo, e vem ao de cima o discurso comunista que traz no bolso. Mesmo esse se nota que está disperso pelos cantos da boca, há partes que estão esquecidas, balbucia muito...

O meu tio morreu, aos 30, quando devia ter casado, mas em vez disso foi viver com a tia; altura em que teve gatos quando devia ter tido filhos. (Tia essa que também era minha tia, e antes disso tia do meu pai, já em milionésimo grau. Também já morreu, coitada, paz à sua alma que em descanso repousa à direita de Deus pai...)

Contenho na garganta a vontade que sinto de lhe dizer que se está só à espera de ir também, há maneiras de acelerar o processo. Mas por pena, só, e por saber que provavelmente, a vida daquele homem realmente terminou cedo demais, por isto e por mais aquilo - e todos os istos são de grande monta - e só eu é que não o entendo, por ter ainda vida de sobra.

4 comentários:

S* disse...

Morrer por dentro e não aproveitar a vida deve ser doloroso... sentir que não se vive, que não se aproveita... é um peso demasiado grande.

Wolve disse...

ele não sente nada, S*. Essa capacidade já morreu.

Unknown disse...

Gostei muito deste post.


Beijos :)

Wolve disse...

Thanks, Miss.

Kiss