domingo, 3 de outubro de 2010

Cinema, mas com cuidado.

“Obrigado pela visita, uma boa noite.” Acordo da minha distracção e reparo em quem me falou, um homem na casa dos quarenta, de vassoura em riste com o lado peludo para cima, saco preto de plástico na outra, e de semblante risonho – por momentos – enquanto passo. “Muito obrigado, um bom fim de semana para si também.” Sorriu, levemente, e logo o sorriso se foi: o guerreiro fechava a viseira em preparação para o combate com as pipocas na alcatifa...

Vim atento o resto do caminho, o que é pouco usual. Costumo sair sempre do cinema embrulhado no filme, ainda fresco na memoria. Mas não ontem, apesar de o filme ter sido fantástico (fui ver “the Switch”, que aconselho vivamente): vinha a passo calmo, entretido em reparar em quem saía das salas.

As pessoas vão ao cinema nas mais variadas situações, com as mais variadas companhias. Afinal de contas é um hobbie, um prazer, mas também um vento social. Os pais com os miúdos pela mão, com cara de enfado por ter aturado duas horas de Harry Potter, mas os miúdos aos pulos de excitação; o casal de namorados, mas também os que ainda não são, mas para lá caminham; as duas amigas que cochicham o tempo todo acerca disto e daquilo.

Mas também o casal divorciado que vai ao cinema com o filho pequeno, e que apesar de darem as mãos ao menino, um de cada lado, evitam dar os olhos. Os dois ex-namorados mas que ainda se amam e sonham com a boca um do outro, e que se encontram como amigos, mas que o filme atraiçoa quando duas personagens se beijam. As amigas que vão ao cinema, porque uma delas precisa de arejar a cabeça – seja lá porque for.

Os filmes acabam por ser coisas sensíveis. Uma cena em que alguém morre, e em quem está a ver não está tão longe disso, ou uma história mais tocante que se aproximou demais de uma realidade qualquer. Não sei se quem lá trabalha está consciente disso, se é só politica do cinema escolher gente com certo perfil. Ou se estou enganado. O que eu noto é que logo no andar de baixo, já não sou atendido com o mesmo cuidado – embora esteja a pagar muito mais.


PS – esta coisa das classificações dos filmes é uma treta. Então este “a troca” é uma comedia?

2 comentários:

Carolina Louback disse...

Antes da mordida... rsrs... ainda não vi este filme mas pretendo ver amanhã. Lendo-o aqui fui ver sobre a sinopse e me interessei de imediato porque é a base da minha pesquisa de mestrado que versa sobre reprodução assistida.

Quanto a tudo que descreveste sobre quem se dá o deleite na sétima arte, concordo plenamente. Projetamos em tudo que vimos e a cena que nos atravessa sem dúvida tem a capacidade de impactar. Quantas vezes choramos ao assistir um filme (não sou muito de chorar, nem gosto de melodramas, mas já chorei durante alguns filmes).

Gostei do post, beijos para ti.

Wolve disse...

o filme não tem nada que ver com reprodução assistida, Carolina. Tem que ver com tudo, menos com isso. Neste filme, o nascimento do miudo serve só de pretexto para algo maior. Mas veja na mesma, o filme é maravilhoso.