segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O fim.

Desde que conhecera Morgan, toda a minha vida amainara, como acontece quando chega o verão às cidades portuárias. Toda a paisagem de mim se tornara amena. As noites passadas com ela, e os dias vividos por ela. Tudo se encaixara em deliciosas harmonias de um momento para o outro. No entanto, eu mudara muito, nos meus hábitos: deslocava-me muito menos, cada vez mais de dia. Dormia nos mesmos sitos, cumpria rotinas, raramente eu e Morgan andávamos longe um do outro. Até que ela um dia me pede que façamos uma viagem.

- Wolve? – era estranho, ela chamar-me pelo nome. Até porque não havia mais ninguém, ela só podia estar a falar comigo.
-- Sim?
Ela inspirou e reteve o ar por um pouco, expirou-o num surpiro prolongado.
- Quero levar-te para fora desta floresta.
- Porque? – algo estava errado. – Passa-se alguma coisa?
- Sim, passa. Vou voltar ao meu lugar, e quero que venhas comigo.
- Vais voltar? – tinha-me apanhado de surpresa. – Para onde?
- Para casa.
- “Casa”? Eu nem sabia que tinhas uma...
Ela não respondeu.
- Quero que venhas comigo. Eles vão receber-te como a um filho, prometo.
- Não estou interessado numa alcateia. – Been there before, and look what it got me into...
- Não são lobos. Regem-se por um código diferente. – para ela era tão obvio que quase me repreendia por pensar algo tão idiota.
- E se eu não quiser ir?
- Tu virás. Ou queres que pense que não me amas?

Desabei. Nunca Morgan tinha proferido qualquer tempo ou conjugação daquele verbo, em forma alguma, e agora despejava-mo em cima como se nada fosse? Simplesmente, não lhe consegui responder. Partimos no dia seguinte.

O caminho era tortuoso, ela insistiu para que fossemos pelas montanhas. A subida era íngreme e perigosa, e era já território não vigiado: as alcateias não iam ali, eu não sabia sequer quem era dono daqueles desterros. Ursos, talvez; sabia por experiencia própria que eles apareciam na floresta, por isso de algum lado deviam vir. Prosseguíamos tão depressa quanto conseguíamos e sempre atentos. Quando chegámos ao topo, ela pediu um momento para respirar, e eu aproveitei para olhar para trás – ao que tudo indicava – uma última vez. As árvores lá em baixo formavam um tapete consistente, de verde e branco, até perder de vista. Por baixo devia ainda ser noite, tirando uma clareira ou duas. Pensei que fosse ter medo – do desconhecido, do futuro incerto, da mudança. Na verdade, não deixava nada para trás, conhecia tanto do sitio para onde ia agora como conhecera daquele covil em toda a vida que lá vivera.

Retomámos a caminhada, agora pela crista dos rochedos. Não sabia quando caminho faltava, e Morgan mantinha-se muito calada desde que partimos, de madrugada, não fazia intenção de lhe perguntar. Ela saberia, e eu confiava nela.
Quando as nossas sombras rodaram para a nossa esquerda, parámos à beira de um regato e descansámos um pouco. Ela atreveu-se a dizer que chegaríamos já de noite, mas que não valia a pena pernoitar antes de lá chegar. Apontou no horizonte o lugar para onde íamos. A terra era árida, daquele lado das montanhas, era difícil encontrar uma árvore no meio de tanto gelo. Confesso que não percebi o que ela apontou, fiquei apenas com a sensação que era no meio do nada.
Preparávamo-nos para arrancar novamente quando surgem, a poucos metros, um bando felinos. Eram uns oito, castanhos malhados. Vinham direitos a mim.
- Olha! Parece que nos escapou um. – disse um deles.
- Ou se escondeu bem escondidinho, ou agora andam a exportá-los. – disse outro, mais ao lado. Morgan saltou para a minha frente.
- Ele está comigo. – disse ela em tom firme.
- E nós estamos uns com os outros. Todos juntos, que e como quem diz, nós cá e ele bem mais p’ra lá. – continuou o primeiro.
- Ele está comigo. – repetiu, agora em tom de ameaça.
- Não quererás antes dizer que tu é que estás com ele? – era um aviso.
- Considerem como quiserem. Eu e ele somos um só. – eles estacaram, olhando para o que parecia ser o chefe.
- Muito bem. Conheces as regras. Se atacares, respondemos.

Morgan olhou para mim, aflita. Quis dizer-lhe que estava tudo bem, e que ía resolver tudo, mas não tive tempo. Quando dei conta, eles avançavam rapidamente – muito rapidamente – e ela preparava-se.

- Eu amo-te, pequenino. – e arremessou-se contra eles.

Quis dizer-lhe que não fosse, que eu não valia a pena, que devia ser eu... sobretudo queria responder-lhe que a amava também, mais do que a mim próprio, e que se era a minha vida que eles queriam eu a daria, porque depois daquela frase nada seria em vão.

Tarde demais.

Antes que pudesse mexer-me, dois deles abalroavam Morgan com toda a força e dominavam-na no chão, por entre rugidos e gritos, enquanto os restantes saltavam por cima deles em direcção a mim. Eu corri para ela; tinha que a tirar dali, protege-la como sempre disse que faria. Não seria meia dúzia de rufias que a iam tirar de mim.
Sem pensar muito em como, rompi o grupo que me atacava, atravessei todo o caminho até ela, removi os outros dois à dentada e atirei-os para longe. Só parei quando a tinha segura entre as minhas patas. Sentia o coração bater com muita força, e foi com a voz tremida que lhe pedi que se levantasse.
- Morgan, amor... – o corpo dela, estendido no chão, não reagiu. – Morgan? – quis pegar-lhe. Por baixo estava uma poça de sangue.

Voltei-me para eles, possuído de raiva, enquanto eles se recompunham. Estava cercado mas eles não se aproximavam, e eu sabia porque, reconhecera a sensação: estava a transformar-me. E desta vez, não tencionava parar.
Avancei para o que me pareceu mais próximo, que tentou fazer-me frente e avançou também. O rugido que me saiu da boca foi colossal, e o gato travou a fundo, tentou voltar para trás, virou-me as costas. Era um dos que matara Morgan, e eu ia ter isso em consideração. Pisei-o no quadril, abocanhei-lhe o pescoço e puxei até partir.
Próximo.
O furor da morte tomou-os, e quase ao mesmo tempo, saltaram todos acima de mim. Um deles mordeu-me numa pata; enrolei-o e mordi-lhe a cabeça inteira. Um outro atacou-me de lado, mas antes que pudesse morder-me, arranquei o primeiro do chão e atirei-o contra ele. Era extremamente leve. Outro se seguiu, e aviei-o da mesma maneira, esmagado contra o chão. Entre os meus dentes o gato gania enquanto eu o brandia, e os seus ossos se quebravam nos impactos. Larguei-o. Mais um, e sem dificuldade nenhuma lhe pus uma mão em cima, e o tracei a meio com os dentes. Metade deles fugia... mas não para muito longe.
Persegui-os a todos, até ao último.
No fim, voltei para perto dela. Agora que me acalmara um pouco, reparava como eram aterradoras as marcas no chão. O tamanho das minhas patas era abominavelmente maior que as dos gatos, e a terra estava em muito sítios verdadeiramente revolvida. Para alem disso, o cheiro a queimado era nauseabundo, e demorei a perceber que era dos corpos. Aparentemente, o rubor do meu pelo não era apenas cor, o meu bafo desenhava ondas de calor no ar.
Nada disso me importava na altura. Apenas o corpo dela, estendido no chão, e aquele golpe horrendo na sua garganta, que contrastava tanto da sua expressão serena, do anjo que ela sempre foi.
Fiquei naquele mesmo lugar, à beira da agua, durante horas. Escureceu, e depois nasceu a lua. Não conseguia largar-lhe o corpo, já frio ao relento da noite.

- Finalmente.

Levantei os olhos. A coruja estava mesmo ao meu lado, de olhos postos na minha Morgan.

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