domingo, 9 de outubro de 2016

Não me pertenço a mim próprio

O meu nome foi-me dado pela minha mãe e pelo meu pai
Imposto sobre mim como coroa
Um rei, nem de mim próprio que não escolhi
Antes ser Paulo, ou Raimundo, ou outra coisa qualquer.
Sou dono e senhor de um nome
Comum a tanta outra gente, homens e até mulheres
Um nome, que se faz som na boca dos outros.
Um som gutural como outro qualquer, só que sobre mim.

Foi-me imposto um carácter, também.
Impôs-me Torga que fosse filho por metade dos meus pais
E por outra metade da terra.
Não sou de mim, sou de tudo menos de mim.

Pertenço ao meu trabalho, ao qual dou o meu sol.
O dia a ele pertence, sobra-me a noite, que me encontra
Tal e qual a solidão me deixa.
 A noite vem e passa, e logo o dia que não é meu.
A todos pertenço, sem que a ninguém me dê.

Pertenço aos meus pais, à terra que não chamo minha,
Ao meu patrão, aos meus compatriotas, à minha solidão
Essa sim, minha.
E um dia quando tiver filhos, se os houver,
Imporei sobre eles um nome sem que eles o escolham,
Tentarei adivinhar no choro se concordam, querendo por bem não
     [lhes impor à força o que me impuseram a mim

Não pertenço a mim, nem a ninguém que me queira realmente.
Querem-me apenas pedaços; a identidade, as vontades, o sol e a escuridão.
E eu atravesso o tempo,
Finito, sei-o,
Deixando que levem pedaços de mim, porque a mim não pertencem,
E aprendendo a largar outros, aos quais me não deixo apegar
Por saber que mais cedo ou mais tarde alguém os quererá e mos
     [tirará porque não são verdadeiramente meus.

 João de nome, rei de um nada que sou eu.

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