domingo, 11 de novembro de 2012

Magda

Hoje assinei papeis, e ao assinar naquela linha ténue, a cada traço da minha mão, estilhaçou-se um canto o meu coração.
Vendi o meu carro. Não podia adiar mais, e não havia mais nenhuma solução. Vendi-o. Vendi um amigo assim, com uns rabiscos num papel que vi uma vez na vida. Um papel que não li, que não me diz nada. Com uma esferográfica de série, com que nunca escrevi nem escreverei texto algum, e por isso nada me diz. Vendi o meu carro a estranhos, dos quais nada sei, e por isso nada me dizem.
Naquele carro fui livre, fui feliz, fui miserável, fui audaz, roubei beijos, amei loucamente, chorei até adormecer. Naquele carro ouvi muita música, e cantava a plenos pulmões sem que ninguém me ouvisse. Foi nele que uma vez, a ouvir Brahms, uma rapariga me disse que adorava Brahms, parada ao meu lado num semáforo, antes de virar para o sentido oposto ao meu. Era aliás onde mais música ouvia, durante as horas que perdia preso no tráfego lisboeta. Há musicas que estarão para sempre ligadas àquele carro. Há musicas que oiço e me levam para trás daquele volante, ora para os dias de chuva em que me enroscava debaixo da manta que morava na bagageira, a conversar com alguém, à falta de um café por perto, ora para os dias em que conduzia até às praias de Oeiras e fazia a marginal toda de vidros abertos, e fingia que era um descapotável.
Rabisquei o tal papel e parti a esferográfica na palma da mão, atirei-a para um canto, e fui fumar um cigarro.
Eu falava com aquele carro. Dentro dele não me sentia sozinho. O cheiro daqueles estofos lembrava-me de tudo o que de bom a minha vida tinha, na altura.
Lembro-me do ataque de fúria que tive quando lhe fizeram o primeiro risco, num estacionamento em Entrecampos, e de como tentei disfarçar o estrago. Lembro-me de me sentir feliz depois de passar uma tarde a limpa-lo e lava-lo, ao olhar para ele e ve-lo a brilhar, quase novo. Lembro-me de ter ido à procura de carro e começar por dizer que não queria um carro frances ou de cor clara, e ter acabado com o meu clio azul-cinza. lembro-me de aquele carro me conquistar aos poucos, de começar a dizer que a Renault afinal não era assim tão má, até o amar de morte.
Naquele carro eu mudei, deixei de ser puto e cresci. E agora troquei-o por dinheiro. Dinheiro mísero e sem sentido, que não me diz nada.

"Não vais ver a tua avó, antes de ela...", mas não acabou a frase. Ela está numa daquelas coisas onde tomam conta dos velhos, à espera que morram, e às quais me recuso a chamar lares.
Respondi-lhe que não. "Porquê?", perguntou-me o meu pai enquanto eu olhava vagamente pela janela do carro que me levava para casa, um carro alemão, sem música e sem cheiro, e que não me diz nada, nunca disse. "Porque não quero."
Sei que a conversa foi parca, para ele. Que ele não entende porque não quero ir ver a mãe dele, e que isso provavelmente até o magoa. Mas a verdade é que aquela pessoa não me diz nada. Não lhe conheço a voz, a cara, as expressões. A única memória que tenho dela é ela correr atrás de mim no funeral da minha outra avó, essa grande mulher de que me lembro desde que me lembro de mim, e que morreu antes de eu ter idade para a saber conhecer, mas cujas meras histórias contadas pela minha mãe são memória viva dela, e que ainda hoje eu imagino a fazer tudo o que a minha mãe me descreve.

E depois penso o quão estranho é não me importar que me morra uma avó sem que eu a veja antes disso, mas ficar destroçado porque nunca mais vou ver o meu clio. É estranho, mas é verdade.

Magda, era o nome que dava à minha carra, porque era uma ela.

1 comentário:

S* disse...

Lamento mesmo muito, dói muito quando temos de nos desfazer de algo. No teu caso, a Magda tinha alegrias e tristezas, felicidade e desilusão. Lamento.