É curioso, o poder que os mortos têm. Sobretudo depois de mortos. Lembro-me sempre dos portugueses brutalmente chacinados no Brazil e enterrados debaixo de uma placa de cimento dum bar de praia, por tres brasileiros que receberam 100 euros cada um, pelo serviço. A policia descobriu, mandaram os corpos para a Pátria, e as viuvas diluiam-se em lágrimas no funeral, em directo para a RTP, Sic e TVI. Para as tres, logo, à grande. A certa altura uma mulher - velhota mas gaiteira - chega-se a uma, mesmo em frente à camara, e diz assim "atão mas ele batia-te em casa que nem um desalmado, fazia de ti cadela, e tu pr'aqui a chorar?". A viuva fica confusa, vira-se para o lado, o pranto a escoar-se pelas frinchas da vergonha a descoberto, foge da camara, cortam atabalhoadamente o directo tão depressa quanto podem.
O mesmo se passa agora, com a morte de Saramago. Enquanto vivo era um provocador, um agitador moral, o anti-Cristo, não sabia escrever, ridicularizava a Casa Real para vender mais, era anti-patriota, apoiava-se no partido Comunista, bla bla bla, e tudo o mais que se queira. Finalmente, depois de morto reúne consenso acerca da sua genialidade, da justeza do seu Nobel, e o País que nunca o amou faz as pazes com ele, com uma cerimónia fúnebre com - vá la, vamos fingir que aquilo foi a sério - Honrarias de Estado. Ninguém diz mal dele, toda a imprensa está de lencinho no lacrimal, e Portugal até contacta o governo espanhol para que passe um avião para o ir buscar, não vão os Espanhóis apoderar-se do nosso escritor e enterra-lo à socapa.
Pergunto-me se daqui a uns anos, quando morrer a Maria João Pires, também vão todos dizer que Portugal é que não a quis, que lhe tirámos a nacionalidade e que a expatriámos para as Terras de Além Mar, e se não vai o estado mandar a correr um C130 para ir buscar os ossos dela.
12 comentários:
Já ouvi dizer, que nos arrependemos das coisas, que fizemos as pessoas mortas, porque mortas, não há chance de lhes pedir desculpas.
Talvez seja isso que esteja a passar com os portugueses e Saramgo e estão a tentar pedir-lhe desculpas.
(nem eu acredito nas minhas próprias palavras)
Hahahahahahaha! os parentesis dizem mais que o comentário, Nox :D
Tu nunca ouviste dizer que depois de mortos somos todos santos? Ninguém se atreve a dizer mal dos mortos. Nos funerais, então, ai o coitadinho, o desgraçado, a pobre vítima que cascava na mulher e se emborrachava todas as noites...
Obviamente que o Saramago não se inclui na categoria acima descrita, mas a verdade é que após a sua morte ninguém ousa sequer falar do seu lado menos bom. Eu continuo a não gostar da escrita demasiado cara e da falta de pontuação.
"Eu continuo a não gostar da escrita demasiado cara e da falta de pontuação."
Gostava de sublinhar o que toda a gente parece esquecer agora: "Eu continuo". Ninguém continua a "nada", agora que ele morreu.
É normal que quando uma pessoa morre, quem se pronuncie sejam as pessoas que realmente admiram o falecido, as que não gostam não têm necessidade nenhuma de o vir afirmar, como é óbvio. Claramente que há muito hipocrisia descarada, mas não se deve generalizar. Além disso, as pessoas que não o admiravam enquanto pessoa, devem ser capazes de discernir, entre a personalidade e a genialidade artística. Podes também não apreciar o estilo e reconhecer qualidade. Há muitas coisas que devem ser separadas. Acima de tudo, ele merece reconhecimento pela genialidade, pela força e pelo contributo positivo para a língua portuguesa...as honras que lhe dedicam (merecidas), não são inválidas ou inúteis porque há pessoas hipócritas no meio disto tudo.
ainda ontem eu me debruçava sobre o génio que foi John Cage. A maneira como ele falava dos sons, de abrir a janela na 5th Avenue e ouvir o transito, sem esperar que aquele som fosse um bouquet de rosas, ou o amor, ou uma tempestade. Aceita-lo como ele era: som. Nada mais que ruido. Mas um ruido modulante, que se move como um ser vivo.
E no meio disto tudo, eu oiço a música de Whitacre, que acabei de postar, e concluo que se não me roubar ao meu próprio coração, a música para mim não é arte.
Se para os que gostam de Saramago, existia nele algum génio, que o adorem, que o venerem, que lhe leiam os livros. Para mim, não passa de um serralheiro revoltado, zangado com a história, com a fé, com o mundo.
Como a ti te toca esse génio da música, o Saramago toca a muitas pessoas de uma forma que cada um saberá. Nenhum génio é compreendido por toda a gente.
O facto de ele ser um serralheiro, zangado com a história, com a fé e com o mundo, que tem? Alguma destas coisas faz de alguém melhor ou pior? Ele converte a sua revolta em arte, compreendida ou não. Fá-lo à maneira dele e não a impõe a ninguém.
E falas desses músicos que admiras, a existência de um génio não invalida a de outros. Isto não vai lá por comparação.
(E eu não estou para aqui a defender o Saramago acerrimamente. Sinceramente aprecio mais o conteúdo que o estilo das suas obras e muito menos estou a defender as ideias dele, só quero dizer, que o que ele fez tem valor e admiro a coragem de alguém que não se acanha perante os dogmas da sociedade e tem a capacidade de transmitir o que pensa ainda que isso choque.)
Saramago sempre foi pessoa que gostei, especialmente quando vivo. Agora que está morto não me serve de nada, não escreve mais, nem diz coisas que chateiam a Igreja, portanto gosto um bocado menos dele.
Era um mau feitio, um irreverente. E eu gosto de pessoas assim. São como eu.
@ M: O estilo não me incomoda particularmente, é o conteudo que abomino. E o que quis explicar com o Cage foi simplesmente que a Arte não é um conceito universal, aquilo que para mim é, para outro pode servir para embrulhar peixe. Precisamente o que faria com os livros do Saramago. No entanto, discordo plenamente com o ponto em que dizer que ele não a impôs a ninguém. Saramago foi-me imposto, como leitura obrigatória, embora eu com dezassete anos já soubesse exactamente porque é que não gostava dele, e em que pontos é que ele era estupidamente fundamentalista.
@ Corset: ao menos gosto das razões que apresentas para gostar dele.
Ok... Ok... foi-te imposto Saramago assim como te foi imposto Eça, assim como te foi imposta qualquer coisa que aprendeste na escola. Na escola obrigavam-me a mim e aos outros a termos "religião e moral" e muitos de nós nem éramos católicos (acho que isto é que não tem lógica). Agora, obras? Provavelmente se não fossem dadas a conhecer aí, muitos dos que agaram amam ou detestam Saramago não o conheciam. E nem vou estar para aqui a refutar isto, porque não me parece que faça sentido.
Pelo facto de ele não te agradar, o que é perfeitamente compreensível como é óbvio, não significa que não mereça honras.
O Saramago em vida era um "provocador, uma agitador moral, um anti-cristo e não sabia escrever" para muitas pessoas e continua a sê-lo.Continua também a ser um génio admirado e amado pelos que já o admiravam e amavam antes. Na hora da morte estes é que se manifestam. Não julgo que depois da morte se tornou santo, e adorado por todos como tu insinuas.
É só isto.
*agora
E isto é na paz. lool.
beijinho* beijinho*
Enviar um comentário