sexta-feira, 2 de abril de 2010

Conheci-a num dia incerto. Não me lembro quando foi, mas lembro-me de sentir a imagem dela a gravar-se em mim, a infiltrar-se contra a minha vontade, por entre os meus pensamentos, como se o seu olhar tivesse vontade própria por entre o meu. Era uma pessoa intrigante: era sensível, chorava com facilidade, por nervos, ao mesmo tempo que era dona de uma vontade férrea, tanto perante o instrumento – ao qual era exímia – como consigo própria. Perdi-me por ela enquanto o diabo esfrega o esquerdo.
Confesso, o choro de uma mulher sempre me perturbou particularmente; chamemos-lhe instinto protector, compaixão, lamechice. O que quisermos. Sempre me apeteceu abraça-la quando ela chorava. Um dia fi-lo – no fim ela beijou-me. Nessa mesma noite encontrámo-nos, em minha casa. Ela cumprimentou-me ao chegar à porta, mas não me largou os olhos. E eu não larguei os dela. Cumprimentou-me outra vez, agora na boca, apaixonadamente. Levamo-nos um ao outro para a minha cama, assim, sem uma palavra. Sentia o coração dela a bater contra o meu peito, por entras as mãos que me tiravam a roupa. O quarto estava escuro, eu não a via, nem queria. Queria-a mais que tudo, queria a essência dela, sem rostos, sem nome. Sem demora.
No meio daquela loucura tórrida ouvi-a soluçar. Acendi a luz do candeeiro, ela chorava enquanto me beijava. Parei, confuso, concentrado na bagunça que – apercebia-me agora – devia estar a cabeça dela. Perguntei-lhe se era de facto assim que me queria. Se me queria de todo. Tentei abraça-la.
“Fode-me. Eu quero-te em mim agora. Eu quero-te.”
Sem parar de chorar.
Mergulhou a boca no meu pescoço, para começar, e não mais parou nessa noite.
Acordei de manhã, com a cabeça dela no meu ombro, embutida em mim de braços e pernas. As lágrimas a correr pelo meu pescoço. Afastei-lhe o cabelo, beijei-lhe o primeiro pedaço de pele que alcancei, e ela despertou, lentamente. Os olhos húmidos ainda. Eu não compreendia. Talvez chorar fosse assim a sua condição natural. “Pensei que nunca te havia de te ter, que esta manhã não chegava nunca.”

4 comentários:

S* disse...

Este texto está muito bonito Wolve... transmite ternura e sensibilidade.

Mas chorar durante o sexo? Ao menos já descobriste o motivo para tal? :)

Wolve disse...

ainda hoje estou para descobrir, S*. Talvez por isso mesmo tenha precisado escrever sobre ela.

Random Blogger disse...

isso é mesmo estranho... mas o texto está bonito :) e "sentido".

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Wolve disse...

eu sou uma pessoa estranha.