- Prometemos-te que voltávamos. Assim que matasses. – respondeu a Coruja.
- Vais finalmente matar-me? Já vens tarde. Já não resta muito que ceifar neste trigal.
- Há coisas piores que a morte. – Virei a cabeça; o Urso estava do outro lado.
A paisagem já não era a mesma. Continuava com o corpo de Morgan, ainda no mesmo sítio, mas já era de noite. Uma noite sem fim, onde não existia mais mundo para além daquele pedaço de chão, com o barulho do riacho ao fundo. Nem haveria mais mundo para mim, nunca mais.
- Eu disse-te que os demónios não aguentavam. Não podias resistir para sempre. – A coruja ficou cabisbaixa com as palavras do Urso. Naquele momento tive a sensação que a Coruja estava, de uma maneira estranha, desiludida comigo.
- Vocês ainda não perceberam que não quero saber das vossas tretas p’ra nada? Roguem as pragas que quiserem, mas longe de mim! Não acham que estou já amaldiçoado demais?
- Não podes mandar-nos embora. Nós vivemos em ti.
- Ai não? – Levantei-me e ataquei a Coruja, mas ela levantou voo. Virei-me para o Urso e investi. Tinha vontade de o matar outra vez, mas ao chegar perto ele levantou a pata e eu estaquei. Rodou-a, e eu caí, sem saber o que fazer às pernas.
Tinha o céu estrelado por cima de mim. “Que linda noite para passar contigo, Morgan...”
A Coruja voltou a pousar, em cima do ombro do Urso, e este andava agora à minha roda.
- Três virtudes.
- Três pecados. Gosto mais desta metade – diz o Urso a rir.
- Agora só depende de ti. – Eles olhavam-me com um sorriso benevolente e cheio de ternura. Um sorriso que eu tão bem conhecia...
O silencio da noite era aterrador. Como se a própria Natureza estivesse à escuta dos meus pensamentos. Nem Urso nem Coruja - e nesse momento soube em mim que não os voltaria a ver. Olhei à minha volta, o corpo da minha amada desaparecera, tal como o ribeiro. Ao que parece eu já não estava no mesmo sítio, as minhas pernas tinham-me levado sem eu querer. Tentei voltar para trás, usei o nariz, mas estava realmente perdido e nada à minha volta me ajudava. Decidi andar numa direcção, eventualmente chegaria a algum lado, encontraria qualquer coisa com que me orientasse. Mas à medida que fui andando o tempo passou, e a cada passo que dava tinha menos certeza do que acontecera nos últimos tempos. O mundo voltava a ser frio, como era antes dela. Tornava-se difícil acreditar, agora que tudo se esfumara, como se tivesse passado para lá da película, e estivesse agora a olhar, de fora, para um filme bonito. Nada mais.
Não sei há quanto tempo andava, mas sei quando parei. Foi no preciso momento em que a noite se fez dia, e o primeiro raio de luz rasgou o céu e se estendeu duma ponta à outra do firmamento. Estava na Floresta, no sítio exacto onde acordara uma dia, e abrira os olhos à mais bela visão da minha vida. Virei-me sofregamente, na esperança de a ver ali, em cima do penedo, como da outra vez... Claro que não estava lá. Morgan estava morta... se é que alguma vez existira. Olhei à minha volta, confuso, tentando colar os pedaços das recordações que ainda não me tinham fugido, tentando decorar o que me sobrava ainda. Mesmo ao meu lado estava um galho enorme. Olhei para a arvore mais próxima, e vi o ramo quebrado. Comecei a lembrar-me da tempestade nessa noite. Comecei a sentir a dor na têmpora direita...
Corri até à toca, o mais depressa que pude. Talvez lá estivesse ainda alguma coisa... que me lembrasse. Entrei esbaforido, só parei junto à alcova onde costumávamos dormir. Funguei intensamente. Era como se Morgan ali estivesse em frente à ponta do meu nariz, tal e qual, só faltava o calor morno do seu corpo.
Pensei percorrer de novo o caminho até onde Morgan morrera. Onde eu a deixara morrer. A minha cabeça enumerou logo razões para não o fazer. “Posso não me lembrar do caminho e perder-me.”, “O corpo provavelmente já lá não está”, “podem aparecer mais gatos e tu já não sabes se tens forças para te defender”. Eu sabia a verdade. Morgan morrera, e a culpa era minha. Tudo me servia para não enfrentar isso. A minha cabeça preferia acreditar que nunca ela existira. Antes isso a ter a certeza de tudo o que de maravilhoso se passara, e de que a culpa de ter acabado era realmente minha.
“E agora?”
Agora acho que cresci. Não mais aos Ursos e às Corujas, que há em mim. Está na hora de partir para longe. Sozinho. Começar uma nova vida, levar na bagagem apenas aquilo que aprendi.
E adeus a ti também, Morgan, a ti que nunca esquecerei.
Its time to let go.

Fim.
3 comentários:
Que lindo Wolve. Lindo texto, linda imagem, magnífico final.
Olá deixei um miminho para ti no meu blog, se não te importares de receber e fazer :)
Bjito
@S* - isto precisava sinceramente de ser rescrito... talvez um dia, que me apeteça, faça o remake disto.
(PS - acho que a imagem é um cão, mas como eu adoro cães, tanto me faz. XD )
@Psiuuuu - I'll take it!
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