quarta-feira, 17 de junho de 2009

Das peças.

Adoro o mundo em que ando. É magia por todo o lado - se estiver com paciência para ir ao seu encontro. Um mundo em que a ciência serve o prazer, em que a humanidade serve um propósito nobilíssimo, em que tudo sopra e clica para algo melhor, como uma engrenagem feita de gentes - tão diferentes - e em que todas as peças se concentram em chegar a algo mais puro.

O mundo é fantástico, tão fantástico como o velho BMW de 1967 que o meu pai teve. Era lindo, no seu próprio estilo, e tinha os estofos mais deliciosamente duros que o meu traseiro experimentou. Mas não andava. Era lindo...

mas completamente podre.

Não havia peça que estivesse inteira, o bloco do motor assentava debilmente sobre a canalização, que se apoiava no radiador, que - esmagado - ficara entalado contra a carroçaria. Sempre tive a sensação que um breve pontapé traria toda aquela maravilhosa bagunça ao chão. Mas nunca me atrevi. Tinha por aquele carro um carinho tremendo.
Um dia, mudámos de casa, e tivemos que o vender. Para o entregar, tivemos que o retirar da garagem. Usámos um guindaste e um suporte, e com todo o cuidado, ele saiu para a rua. Pela primeira vez via-o sob o sol do meio dia. Era ainda mais bonito sob a luz intensa. Precisava era de uma limpeza, confesso. O comprador chegou, apertou a mão ao meu pai, olhou-me e disse "olá". E depois mandou avançar a grua. Era um daqueles camiões com um braço hidráulico e uma garra. Agarrou-o pelo tejadilho e largou-o dentro do reboque. O meu pai não fazia ideia das intenções do comprador, estava no mesmo estado que eu. Aparentemente, interessavam-lhe as peças. Duas semanas depois, voltou. Veio berrar com o meu pai, queria o dinheiro de volta, porque por dentro estava tudo podre. "E eu quero o meu carro de volta, estimado com estava desde há quinze anos." disse o meu pai. O homem girou nos calcanhares e desapareceu, furioso. Ainda me lembro da carrinha que conduzia e de como ela roncou quando arrancou.

O mundo em que ando é assim. É lindo. Mas é melhor não observar de perto, porque individualmente, há com cada peça...
Esperemos só que também haja o carniceiro.

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