Doutor, sinto-me doente.
Mas porquê? Tem dores? Febre, indisposições, agonias, sangra de alguma coisa?
Nada disso. perdi um pedaço de mim.
E que pedaço foi esse?
O coração. Acho que não está lá.
Ora deixe ver. Ainda oiço bater. Fraquinho, mas está presente. Sente alguma coisa?
Asfixia, doutor. O ar entra e as palavras não saem. E as palpitações!... O passado bate com força, dá-me tonturas.
Isso resolve-se com uns comprimidos.
Acho que não, senhor doutor. Como é que me vai tratar algo que eu não tenho? Que perdi, e não consigo encontrar? É a falta que me mata.
Mas que mais quer então que eu faça?
Não sei, doutor. Mas preciso que ele volte. Preciso que o meu coração volte. Dê-me beijos em comprimido. Amor em injecções, transfusões de ânimo. Opere se for preciso, mas devolva-me o que nunca tive...
Meu caro... a sua doença pode não ter cura. Só remédio.
Mas eu não quero remediar! Se não posso matar esta agonia, mato-me a mim próprio. Arranco as entranhas com remorsos afiados e atiro-as para longe na esperança que encontrem o resto que perdi no vazio da escuridão!
Sabe que mais? O seu mal é não ter entrado em coma como toda a gente. Não pense mais nisso. Aliás, não pense.
Não me serve. Não tenho coração, e agora pede-me que não tenha cérebro? Não, não quero, não aguento.
A alcateia não esperou que eu saísse da consulta.
Estou sozinho outra vez...
Setembro de 2008
2 comentários:
Pois...as "doenças do coração" são de facto as mais dificeis de curar :| mas deixa, que quando a cura xega não é daqueles que ardem ou sabem mal... é das mais doces que existem ;)
obrigada por ires passando no meu blog... gosto imenso dos teus comentários...
também vou seguindo o teu :)***
O teu texto, meu preferido. =) Bom 2009 e muitos sorrisos.
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