quarta-feira, 5 de novembro de 2008

A Urgência.

Doutor, sinto-me doente.

Mas porquê? Tem dores? Febre, indisposições, agonias, sangra de alguma coisa?

Nada disso. perdi um pedaço de mim.

E que pedaço foi esse?

O coração. Acho que não está lá.

Ora deixe ver. Ainda oiço bater. Fraquinho, mas está presente. Sente alguma coisa?

Asfixia, doutor. O ar entra e as palavras não saem. E as palpitações!... O passado bate com força, dá-me tonturas.

Isso resolve-se com uns comprimidos.

Acho que não, senhor doutor. Como é que me vai tratar algo que eu não tenho? Que perdi, e não consigo encontrar? É a falta que me mata.

Mas que mais quer então que eu faça?

Não sei, doutor. Mas preciso que ele volte. Preciso que o meu coração volte. Dê-me beijos em comprimido. Amor em injecções, transfusões de ânimo. Opere se for preciso, mas devolva-me o que nunca tive...

Meu caro... a sua doença pode não ter cura. Só remédio.

Mas eu não quero remediar! Se não posso matar esta agonia, mato-me a mim próprio. Arranco as entranhas com remorsos afiados e atiro-as para longe na esperança que encontrem o resto que perdi no vazio da escuridão!

Sabe que mais? O seu mal é não ter entrado em coma como toda a gente. Não pense mais nisso. Aliás, não pense.

Não me serve. Não tenho coração, e agora pede-me que não tenha cérebro? Não, não quero, não aguento.




A alcateia não esperou que eu saísse da consulta.
Estou sozinho outra vez...



Setembro de 2008

2 comentários:

Medusa disse...

Pois...as "doenças do coração" são de facto as mais dificeis de curar :| mas deixa, que quando a cura xega não é daqueles que ardem ou sabem mal... é das mais doces que existem ;)

obrigada por ires passando no meu blog... gosto imenso dos teus comentários...

também vou seguindo o teu :)***

Pseudónima disse...

O teu texto, meu preferido. =) Bom 2009 e muitos sorrisos.