domingo, 17 de agosto de 2014
Long time, no see
Anda desaparecido, dizem. Sem grande entusiasmo, não passa de uma constatação.
Deve ter melhores coisas para fazer da vida, respondem, quando na verdade querem é dizer que quando eram ricos falavam aos pobres.
Entretanto, ele, volta ao café por onde andou tanto tempo, e que agora visita como quem, nas férias, volta à terra onde nasceu, pela mera curiosidade de ver se ainda está tudo na mesma. E está.
A empregada veste de preto, como sempre, e ainda tem o mesmo alargador na orelha esquerda. Se não o mesmo, tanto pior, é um exactamente igual. Podia mudar de alargador - e de vida - e prefere ficar na mesma. As mesmas botas de montanha, bordeaux, em pleno verão. De repente bate, "eu já vivi esta vida", diz ele, ao olhar para as botas, "sei exactamente ao que sabe".
"We've come a long way..."
Abre o computador em cima da mesa, arredando desinteressadamente o pastel de nata, o café e os guardanapos, e lê o New Yorker. As crónicas são interessantíssimas. Subitamente reaparece aquela velha vontade de escrever. Sente que ele próprio podia ser cronista daquela magazine se dominasse aquele inglês enviesado de quem é nativo - não o que se fala nos livros e nos filmes; o inglês do dia a dia, mais slang, mas que na estética pop dos cronistas actuais fica tão bem, quando é um bocadinho cuidado. Assim à J. L. Peixoto, és a acácia dos meus dias, fode-me de noite, com amor, dentro do amor, deste género. Enfim.
Em português também fica bem, concluiu. E vende. Mas no rectangulozinho decadente há uma espécie de honra à antiga, mesmo no nosso brejeiro, vernáculo, há nobreza. "Memórias das minhas putas tristes", ainda por cima dito por quem é, mesmo na lingua mais pornográfica do mundo, impõe o seu respeito, cuño! Da mesma maneira, O Amor é Fodido. Mas temos quase mil anos de história, há peso sobre os ombros. Relembra uma série de televisão - ah, esse estilo tão subestimado de literatura, de onde brotam argumentos tão brilhantes que os guiões deviam sair em capa dura - e diz para si mesmo "I may have been born at night, but it wasn't last night".
Era verdade. O "ontem à noite" tinha muito caminho em cima, já. Uma comichão no braço, arranha-se, e fica a pensar quantas cicatrizes lá estarão por baixo, que nem ele sabe dizer. "Devia fazer alguma coisa da vida.", e tamborila com os dedos na mesa. "Ser alguém".
Tinha de facto melhores coisas para fazer.
Deve ter melhores coisas para fazer da vida, respondem, quando na verdade querem é dizer que quando eram ricos falavam aos pobres.
Entretanto, ele, volta ao café por onde andou tanto tempo, e que agora visita como quem, nas férias, volta à terra onde nasceu, pela mera curiosidade de ver se ainda está tudo na mesma. E está.
A empregada veste de preto, como sempre, e ainda tem o mesmo alargador na orelha esquerda. Se não o mesmo, tanto pior, é um exactamente igual. Podia mudar de alargador - e de vida - e prefere ficar na mesma. As mesmas botas de montanha, bordeaux, em pleno verão. De repente bate, "eu já vivi esta vida", diz ele, ao olhar para as botas, "sei exactamente ao que sabe".
"We've come a long way..."
Abre o computador em cima da mesa, arredando desinteressadamente o pastel de nata, o café e os guardanapos, e lê o New Yorker. As crónicas são interessantíssimas. Subitamente reaparece aquela velha vontade de escrever. Sente que ele próprio podia ser cronista daquela magazine se dominasse aquele inglês enviesado de quem é nativo - não o que se fala nos livros e nos filmes; o inglês do dia a dia, mais slang, mas que na estética pop dos cronistas actuais fica tão bem, quando é um bocadinho cuidado. Assim à J. L. Peixoto, és a acácia dos meus dias, fode-me de noite, com amor, dentro do amor, deste género. Enfim.
Em português também fica bem, concluiu. E vende. Mas no rectangulozinho decadente há uma espécie de honra à antiga, mesmo no nosso brejeiro, vernáculo, há nobreza. "Memórias das minhas putas tristes", ainda por cima dito por quem é, mesmo na lingua mais pornográfica do mundo, impõe o seu respeito, cuño! Da mesma maneira, O Amor é Fodido. Mas temos quase mil anos de história, há peso sobre os ombros. Relembra uma série de televisão - ah, esse estilo tão subestimado de literatura, de onde brotam argumentos tão brilhantes que os guiões deviam sair em capa dura - e diz para si mesmo "I may have been born at night, but it wasn't last night".
Era verdade. O "ontem à noite" tinha muito caminho em cima, já. Uma comichão no braço, arranha-se, e fica a pensar quantas cicatrizes lá estarão por baixo, que nem ele sabe dizer. "Devia fazer alguma coisa da vida.", e tamborila com os dedos na mesa. "Ser alguém".
Tinha de facto melhores coisas para fazer.
domingo, 25 de maio de 2014
Ora, um passageiro descontente com o autocarro da TST que nunca mais chegava, decide protestar, furando os pneus ao Intercidades na Lourinhã.
Parece idiota?
Também a mim me parece idiota os fregueses boicotarem, em certas freguesias desse Portugal selvagem, as eleições ao parlamento europeu, por lhes fecharem o centro de saúde da aldeia.
Parece idiota?
Também a mim me parece idiota os fregueses boicotarem, em certas freguesias desse Portugal selvagem, as eleições ao parlamento europeu, por lhes fecharem o centro de saúde da aldeia.
sábado, 22 de março de 2014
Voltei a casa.
Redescobrir-me é um processo estranho, sobretudo para quem está habituado a achar que sabe quem é. Ou para quem acha que o que é, é um processo criativo.
Afinal não é nada difícil, quando nada puxa para onde é errado, quando a cadeira permite a correcta postura da espinha. Tudo vai ao sítio, e as dores do mundo afinal eram tensão acumulada nos ombros. Vivo bem comigo próprio, porque voltei a casa.
Mas volto diferente é certo.
Redescobrir-me é um processo estranho, sobretudo para quem está habituado a achar que sabe quem é. Ou para quem acha que o que é, é um processo criativo.
Afinal não é nada difícil, quando nada puxa para onde é errado, quando a cadeira permite a correcta postura da espinha. Tudo vai ao sítio, e as dores do mundo afinal eram tensão acumulada nos ombros. Vivo bem comigo próprio, porque voltei a casa.
Mas volto diferente é certo.
Para onde vão as personagens dos livros quando se vira a ultima página e se devolve o livro à estante? Morrem, inertes? Talvez continuem vivas, talvez fiquem sentadas à espera que lhes peguemos outra vez.
O Wolve acabou, apesar dos capítulos escrevinhados sobre quem poderia ter ido à procura dele. Mas o lobo continuou à deriva pela neve escura, de tão branca. À revelia de quem o criou, ou seja, à revelia de si mesmo, continuou vivo, e chegando a minha casa, bateu à porta. Não estava ninguém, e não tardou a que virasse costas, de volta ao nada.
O Wolve acabou, apesar dos capítulos escrevinhados sobre quem poderia ter ido à procura dele. Mas o lobo continuou à deriva pela neve escura, de tão branca. À revelia de quem o criou, ou seja, à revelia de si mesmo, continuou vivo, e chegando a minha casa, bateu à porta. Não estava ninguém, e não tardou a que virasse costas, de volta ao nada.
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
domingo, 9 de fevereiro de 2014
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